A INTRUSA | Capítulo IV
CAPÍTULO IV Num belo sábado, o Barão do Cerro Alegre trouxe a neta à cidade e foi depô-la no escritório do pai, que a esperava, já impaciente. O velho não se demorou; tinha horror às ruas abafadas e às feias salas dos escritórios. Mostrava-se mesmo apressado em se desembaraçar da incumbência, temendo ser cúmplice em algum desastre que acontecesse a Maria, que via cercada de perigos, sempre que saía da sua chácara. Ainda assim, não se pôde conter e recomendou ao genro:– Dizem que por aí há muitas febres… é preciso ter prudência! A avó pede-lhe que não deixe a Maria comer doces na confeitaria. Ela pode abusar, é gulosa…– Vá descansado; e obrigado!Enquanto Argemiro despachava uns papéis, Maria ora se debruçava na sacada, ora remexia todo o escritório do pai.Mas Argemiro tinha pressa também de atravessar as ruas com a sua Gloriazinha pela mão, e abreviou o trabalho. Saíram; e as recomendações dos pobres velhos foram absolutamente esquecidas… Maria da Glória agarrou-se ao pai, atordoada com o burburinho do povo com que ia esbarrando; aquilo alvoroçava-a sem diverti-la, mas a pouco e pouco, a cada paragem para uma conversa de minutos, em que os amigos do papai lhe beijavam a mão, como a uma princesa, acordava nela uma curiosidade estranha por esta vida da cidade, tão embaraçada de enleios. Queria ver tudo, retinha Argemiro em frente das vitrines, embarafustava pelas lojas; e como via em exposição muitas coisas que não tivera nunca, exigia-as do pai, que, dócil como a cera mole, ia comprando tudo, sentindo-se ainda feliz por satisfazer assim a sua Maria, só dele, nesse sábado bendito.Quando chegaram às Laranjeiras, o pai subiu logo para o seu quarto e recomendou a Glória que esperasse na sala Alice Galba, a quem mandou avisar, pelo Feliciano, que viesse receber a menina.Maria recostou-se no sofá, esmagando no estofo as papoilas do seu chapéu à jardineira. A antipatia da avó sugerira-lhe instintiva repugnância por essa intrusa, como chamavam lá em casa a governanta das Laranjeiras. Ah, mas Glória tinha o seu plano, não deixaria que a outra tomasse confiança consigo. Uma alugada, uma mercenária!E dava-se ares de grande dama, muito atirada sobre os almofadões de pelúcia, com uma expressão de desprezo afeiando-lhe a boca e as suas faces rosadas, de criança. Realmente aquela atitude não era agradável, o chapéu sobretudo incomodava-a mortalmente, e sentia enterrar-se-lhe nas costas, como um castigo, a ponta de um alfinete. Suportou o sacrifício heroicamente, até que viu entrar na sala, com o modo mais simples e desembaraçado do mundo, uma moça, nem bonita nem feia, vestida de cinzento, com aventalzinho preto e um molho de chaves pendentes da cintura.Glória empertigou-se mais. Alice aproximou-se dela sorrindo e estendeu-lhe as mãos, duas mãos muito brancas e longas. Glória levantou-se, sem se dignar tocar nessas mãos, e disse com aspereza:– Quero ver o meu quarto.Alice contemplou-a com tristeza e curiosidade; depois, voltando as costas:– Siga-me…Atravessaram o corredor, subiram uma escada e entraram em um quarto forrado de azul, com janelas abertas para os lados do Silvestre e duas camas brancas.– É aqui?!– É aqui.– De quem é esta cama?– Sua.– E aquela?– Minha.– Eu quero dormir sozinha; não sou medrosa. Arranje outro quarto para mim. Agora, tire-me o chapéu!Glória sentou-se na cama, brutalmente. Alice tirou-lhe o chapéu e endireitou-lhe o cabelo. A menina foi ao espelho, achou-se bem penteada e lá no fundo da sua consciência concordou que jamais sentira pousar sobre a sua cabeça mãos mais habilidosas. Voltando-se contemplou Alice de alto a baixo, e perguntou:– Quantos anos tem?– Vinte e três.– Parece mais velha.Alice sorriu.– Eu tenho doze…– Parece mais criança…– Hein?! toda a gente diz que já pareço uma moça! É míope?– Parece criança no juízo, minha amiguinha, e é por eu ver muito bem que lhe digo isto… Não seja má… venha lavar as mãos; seu pai espera-a para jantar; não está ouvindo o tímpano? É o sinal…Glória tremia, sem atinar com a resposta para semelhante afronta. Depois, num desabafo: – Você é muito grosseira!Alice apoiu-se às costas da cama e fechou os olhos.– Bem diz vovó: sempre é mulher de anúncio!– Quê?!Glória não respondeu, e correu, rindo às gargalhadas, para a mesa do jantar. Argemiro esperava-a de abraços abertos.– Ah! como a tua alegria me faz bem ao coração! Senta-te aqui e conta-me: por que te ris tanto?– Por nada… à toa!– À toa! como é bom rir à toa! Como eu preciso da tua inocência ao pé de mim! Ri sempre, meu amor!… Olha o guardanapo… Estás contente?… aqui tens o teu pãozinho… É a primeira vez que jantas sozinha com teu pai… que te parece? Olha a tua sopinha… Está a teu gosto?– Eu não quero sopa.– Estás sem apetite?– Eu não gosto de sopa.– Ah, aqui é preciso gostar de tudo, minha senhora! uma pessoa de educação nunca diz a uma mesa: – eu não gosto disto, eu não gosto daquilo… toma a tua sopinha… E agora dize-me: como achaste a D. Alice?– Horrenda.Feliciano sorriu, sorriu com tamanha indiscrição, que Argemiro repreendeu-o com um olhar.– Seja boa e é o que se quer… precisas tratá-la com delicadeza e amizade; ouviste? É graças a ela que te tenho hoje aqui… Queres vinho? muito pouco… com água… assim… Ora, a minha Glória! Tomara já ver-te moça e tomando conta definitivamente disto tudo, para ter-te sempre aqui… sempre!Glória, que recusara a sopa, comia agora com satisfação. O pai revia-se nela, todo contente.A mesa estava bem posta; desde que Alice entrara não deixara de haver flores e frutas ao jantar. Glória, confundindo a elegância com o luxo, exclamou:– Que mesa rica, papai!– Se viesses jantar comigo antes da D. Alice estar aqui, não dirias isso, embora na mesa estivessem as mesmas porcelanas e os mesmos talheres. Repara nisto, minha filha, que a arte e o gosto dão às coisas mais simples uma aparência de conforto e de alegria muito agradáveis à vida. A minha mesa era triste… agora é assim!Feliciano franziu as sobrancelhas, mal humorado.
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