4 Mal raiara a aurora triste e descorada do dia da viagem, já de pé dispunha-se a família para descer ao porto do embarque.Aí chegados, o pai apertou nos braços a filha; duas lágrimas grossas e varonis, como verdadeiros intérpretes da linguagem muda e sincera do amor, abriram-lhe caminho pelas faces tostadas.E, enquanto Rosalina esfregava os chorosos olhos com as costas da mão esquerda, Ângela, meio afastada, resmoneava a oração favorita, a cobrir de bênçãos o querido aventureiro.Não tinha ainda o sol enxugado da umidade os rochedos, que durante a noite receberam chuvas contínuas e carregadas, já uma vela minguava ao longe da baía, confundindo-se com o claro-escuro das águas. 5 Cinco meses depois da partida do pescador, o tempo atirou aos habitantes da ilha um domingo, que se podia chamar a obra-prima de março.Só pode ser verdadeiramente apreciado o domingo por um artista, um operário, um estudante ou outro qualquer filho legítimo do trabalho e que a este dedique toda a semana. Os amados da fortuna e bastardos do suor, que vivem paulatinamente dos seus calados rendimentos, têm sete domingos na semana e não logram conseguintemente o melhor e o mais legítimo dos prazeres – o descanso. Para poder descansar é preciso principalmente uma coisa – cansar. Do que se conclui que o domingo existe e pertence exclusivamente a quem ocupa utilmente os outros dias.A ilha apresentava um aspecto realmente encantador.Por toda parte dançavam e cantavam grupos alegres de homens sadios e mulheres bonitas ao som da guitarra e do pandeiro.À missa da manhã não faltou habitante de Lípari, que prezasse o seu caráter tradicionalmente religioso. Encontravam-se os namorados, trocavam-se meias palavrinhas de ressentimento e ciúme, quando não de amor, e, lá muito a furto, o noivo roubava às faces morenas e coradas da sua conversada um suspirado beijo.Os sinos da Igreja de S. Tiago repicavam o termo da missa.Era muito de ver os moços, com as suas roupas domingueiras, perfilados à porta da igreja, aguardando a saída das suas prediletas namoradas; e para logo surgir, ao calor metálico do bronze, uma onda sangüínea de mulheres frescas e fortalecidas, procurando, com os olhos inquietos e enfeitiçados, os daqueles que as esperavam.Assim apareceu Rosalina, cujos amarrotados da saia denunciavam o muito que estivera de joelhos.Vinha um tanto aborrecida e fatigada: os olhos pareciam mais úmidos que de ordinário e os movimentos mais demorados, as faces enrubescidas pelo calor da igreja, a ligeira transpiração, que lhe borrifava o lábio superior e o nariz, davam ao moreno aveludado de sua tez os tons leves e palpitantes, cujo segredo só possuiu Murilo, quando, pintando a cabeça da virgem, reproduzia a beleza angélica de sua filha.Trazia saia curta de pano escuro e grosseiro, deixando ver o começo de umas pernas bem-feitas e terminadas por dois sapatinhos pretos de fivela e laço. O seio arfava-lhe sob a pressão do tecido rijo de barbatanas de baleia, que armavam um corpete de lã vermelho, muito justo e melhor talhado. Os cabelos, de tal negrura, que levantariam ao sol reflexos de azul- ferrete, destacavam-se do quadrado de linho branco, que lhe toucava cuidadosamente a fronte e reapareciam mais abundantes no pescoço em forma de duas reforçadas tranças.Estava cansada. – Que a deixassem! Queria desafrontar-se daquelas roupas; e, passeando os olhos pelos grupos multicores dos rapazes no vestíbulo, parecia procurar alguém com certa impaciência.Mal dera alguns passos sorrira. Os lábios sempre anunciam rindo, quando os olhos acham quem o coração procura.Com efeito, um moço, saindo da multidão, acercou-se dela.Era um belo rapaz. Esbelto e destro, olhar sombrio e ardente, agradável expressão de amargura na fisionomia, e suma confiança desamparada nos movimentos. Tinha uma cabeça escultural, modelada pelo tipo quase extinto da raça etrusco-pelágia.Como os mais vestia um jaquetão de veludo com mangas compridas e abotoadas, calções justos e claros, enfeitados de fitas na junção com a meia listrada, camisa de lã, aberta no pescoço.Chamava-se Miguel Rizio. Filho de um músico romano, dedicara-se à arte do pai com algum êxito até aos doze anos. De repente, viu-se órfão e sem apoio, ficando-lhe, como derradeira consolação, a sua querida rabeca, única que no viver miserável de lazzarone, a que o condenara a miséria, não o desamparou jamais. Dormiam abraçados, muita vez, pelos alpendres, quando lhes faleciam o teto e a cama.Um belo dia conseguiu fugir para Roma e lá, melhorando a arte, melhorou também os meios de subsistência.De volta à ilha, sua pátria, encontrava-se aos domingos com Rosalina, e desde então, apesar da meninice da pequena, amou-a ele, quase tanto, quanto à sua rabeca.E ela? Valha-a Deus! Por esse tempo nem se lhe dava dos amores do músico.Quem se deu foi o pescador. De uma feita, desconfiou dos olhos ardentes de Miguel, e, cravando neles os seus, não menos ardentes e mais ferozes, fê-lo desde aí experimentar, a despeito da precoce energia de seus dezenove anos, um não-sei-quê desagradável, que o obrigava a evitar sempre o pai de Rosalina.Agora, ausente este, o moço sentia-se livre e feliz, e nestas circunstâncias deu com franqueza o braço a Rosalina, tomando alegremente o caminho de casa, que não ficava longe.A boa Ângela protegia os inocentes amores da pupila, amores novos e superficiais para ambas, que apenas há dois meses o sabiam; enraizados, porém, e velhos para Miguel, que de há muito consumia noites e esperanças a cismar na filha do seu gratuito e maior inimigo.Caracteres angélicos como o do artista sabem e podem amar não com esse amor sensual e grosseiro, cheio de desejos, que estiolam o coração e os sentidos dos filhos das grandes capitais, mas com essa fragrância singela, comparável ao perfume da violeta e que se pode chamar afeto, religião ou mesmo fanatismo. Não a amava ele porque a desejasse, senão porque a sentisse em toda a sua individualidade; nele tudo se poderia extinguir, menos esse sentimento, que o acompanhava como uma qualidade inerente à sua matéria. Quanto mais procuravam evitá-lo, quanto mais obstáculos levantavam à sua passagem, quanto mais faziam por pisá-lo, mais forte rescendia esse afeto, semelhante às