UMA OBRA DE:
Júlia Lopes de Almeida

ANO DE PUBLICAÇÃO:
1908

CAPÍTULO III

O trem dos subúrbios ia partir, quando Adolfo e Argemiro entraram na gare da Central. Adiante deles  corria uma multidão pressurosa e atrapalhada, sobraçando embrulhos e arrastando crianças.  – A hora do jantar aqui é uma hora perigosa, Argemiro! E digam que o feijãozinho não tem prestígio!  Nesse instante sentiram-se empurrados. Eram umas senhoras que lhes tomavam a dianteira no  assalto, muito nervosas, olhando para trás, a contar-se, com medo que não ficasse alguma extraviada.  – Isto é uma ignomínia. Obriga tua sogra a vir cá para baixo.  

– Imagina se não lhe tenho pedido! Cada vez que vou ver minha filha é este horror! E perco um  tempo!  

Caldas rogou uma praga.  

– Que foi isso?! olha se te mandam para o xadrez!…  

– Aquele sujeito ia me arrebatando o pacote dos marrons de tua filha! Não lhe basta a carga. Gente  amiga de embrulhos, a dos subúrbios! Olha.  

– Não tenho tempo. Entra.  

Entraram ambos para um carro.  

Cheirava a carvão de pedra e havia calor.  

Argemiro continuou, depois de sentado:  

– Minha sogra tem razão; ela vive como uma abadessa de convento rico; tem um prestígio por toda  aquela redondeza que nem calculas… Muito boa, muito esmoler, é o centro de uma população de pobres  e de famílias que, se não dependem dela materialmente, acostumaram-se à sua tutela moral e não a  dispensam. Eu compreendo-a e dou-lhe razão. Há ainda outro motivo que a obriga a viver na chácara: é  o empenho de ter a neta só para si. Minha mulher, não sei se já te disse, era filha única e criada com um  mimo raro; durante o tempo em que vivi casado tive ocasião de conhecer a mãe mais extremosa que  jamais vi. Para mim foi de uma bondade e de uma ternura encantadora. Amava-me porque via bem  quanto eu fazia a filha feliz… A neta reproduz para ela a filha morta. Glória foi para casa da avó muito  pequena; foi ela quem a criou, julga-se com todo o direito a guardá-la para sempre… E é para tê-la só  para si, nos mesmos lugares em que cresceu minha mulher, que teima em não sair do seu canto…  

– E contigo não se conta?  

– Considera-me muito, mas entende, e com razão, que não posso ter Glória em minha companhia.  – E se te casares?  

– Ela sabe bem que isso não acontecerá nunca. Minha sogra herdou o ciúme da filha… Sabes que  minha mulher me pediu que não me tornasse a casar…  

– Todas as mulheres rogam aos maridos a mesma coisa, e afinal… todos os viúvos se casam! Mais  depressa que os solteiros, nota.  

– Sinto-me bem assim.  

– Teu sogro aferra-se também por gosto a este sítio?  

– Por gosto e por economia. Ele explica melhor a sua predileção pelo campo, dizendo que, à  sombra das suas mangueiras, se sente mais longe da República…  

– Aí está! e eu nunca o ouvi falar em política…  

– Não é homem que discuta fatos consumados. Depois, está velho e é amigo do repouso… Fez-se  botânico, para entreter os ócios da chácara. Teve uma mocidade tempestuosa; a mulher não foi feliz;  agora então, para compensá-la, dá-lhe toda a soberania e é um cordeiro. O bom velho fez esquecido o  mau rapaz…  

Argemiro reparou que ainda tinha nas mãos distraídas um lequezinho de papel apanhado à entrada  do vagão. Revirou-o entre os dedos: tinha uma vareta quebrada, unida às outras por um fio de linha.  – Deve ser daquela moça que se remexeu há bocado procurando qualquer coisa… Pensei que lhe  tivessem roubado o relógio!  

– Talvez faça falta…  

Era dela. Argemiro, ao entregar-lhe o leque, notou-lhe um movimento de alegria mal disfarçada.  Voltou a sentar-se e Caldas instou: 

– Influi teu sogro a vender as suas terras em Minas. O Barreto pediu-me para organizar uma colônia  suíça, para a indústria dos laticínios… e convém lhe adicionar às dele as terras do barão. Dão-lhe  resultado?  

– Filho, não sei. Meu sogro é um homem calado e eu fujo de mostrar interesse por questões de  dinheiro. Mas onde diabo vais tu arranjar suíços?!  

– À China, talvez… que pergunta! Irei à Suíça, homem!  

– Sempre arranjas uns negócios!  

– Nunca os procuro. Eles entram por seus pés em minha casa; aí, ou os recebo ou atiro-os pela porta  afora. Fica certo que negócios procurados não prestam. Não há nada como um sujeito passar por  homem rico, para enriquecer… O próprio indivíduo chega até a iludir-se e a ficar mais bonito… Conheces  maior volúpia que a do dinheiro, senhor absoluto do mundo todo? Só o que é bom e caro dá prazer…  

Argemiro sorriu, lembrando-se do lequezinho quebrado, e do gesto de contentamento que fizera a  dona ao reavê-lo. Pobrezinha…  

Caldas, por ter confiança no amigo, entrou a falar-lhe baixo da sua cooperação nos relatórios do  Vieirinha, ainda maior trabalho do que tivera com os relatórios do Teobaldo, quando ministro da  fazenda…  

– Dize-me cá, – atalhou Argemiro. – Em que disposição está o presidente a respeito do Pedrosa,  sabes?  

– O burro do Pedrosa vai ser ministro.  

Argemiro riu-se; Caldas retomou o fio das suas confidências interrompidas.  

O trem corria de estação em estação, com os seus guinchos ensurdecedores. Uma criança chorava  no colo da mãe aflita; um grupo de rapazes amarelos e desdentados falava de eleições do Clube  Riachuelo, ao pé de uma senhora de cabelos grisalhos, bem vestida, e que viajava só.  

Lá fora a paisagem estendia-se larga, banhada de sol escaldante. Um véu fino de pó dourava a  atmosfera. Laranjeiras pequenas, de grandes frutos dourados, alegravam aqui e acolá um ou outro ponto  dos campos mal tratados, onde em gramados secos trilhas barrentas descreviam linhas tortuosas.  

– Isto é desconsolador… – observou Argemiro, apontando para a extensa pradaria, onde em vários  trechos se agrupavam casinhas feias.  

– E este trem poderia rolar entre pomares cheirosos. O Brasil é a terra da flor esquisita e da fruta  saborosa. De um lado e de outro destas estradas, se tivéssemos camponesas e agricultores de bom  gosto, veríamos, Argemiro, lindas orquídeas suspensas na galharia de árvores frutíferas. Olha bem para  aquilo! É preciso não ter absolutamente gosto nem instinto, para se fazer uma cerca assim, de paus  tortos, aqui no país do bambu. Do lindíssimo bambu! Ah! o japonês! que povo feliz e aproveitador… Vou  lembrar ao Barreto instalarmos aqui uma colônia de japoneses, com a condição de fazerem eles mesmos  as suas casas e trazerem muitas musmés bonitas…  

– Condição essencial!  

– E que tu com toda a tua viuvez aproveitarias melhor do que eu…  

– Aprecio pouco o tipo e detesto a raça…  

Adiante, o grupo de rapazes aumentara com outros sujeitos, que, abandonando os seus lugares,  tinham vindo discutir a eleição do clube. Um dos moços, no calor da discussão, sentara-se no braço do  banco em que viajava a senhora de cabelos grisalhos. Ela encolheu-se, com ar constrangido. O rapaz  gritava aos outros:  

– Se eu não tivesse educação, não teria contido o ímpeto que tive de esbofetear o Andrade, ali  mesmo no clube!  

Um outro advertiu-o de que ele estava incomodando a viajante; ele levantou-se com uma desculpa e  foi nesse instante que o trem parou em Madureira.  

Caldas e Argemiro encontraram na estação a vitória do barão, que os esperava.  – Lá em casa todos bons? – perguntou Argemiro ao cocheiro.  

– Todos bons.  

– Nota esta esquisitice, Adolfo; só me lembra que minha filha pode estar doente no momento em que  me aproximo dela. Assalta-me então o terror de a ir encontrar de cama…  

A chácara do barão ficava a um quilômetro da estação. O carrinho partiu ao galope de um cavalo  ligeiro, e dez minutos depois transpunha o largo portão da chácara, seguindo até à porta da habitação,  por uma extensa rua de mangueiras belíssimas.  

– Como isto repousa a gente! – exclamou Caldas, aspirando com força o aroma da flor de fruta e  pascendo o olhar pela frescura daquelas sombras.  

– O Paraíso… murmurou Argemiro, esticando o pescoço, a ver se via, ainda que de longe, a filha. 

Antes que o carro chegasse à casa, Maria da Glória atravessou aos gritos um grande relvado lateral  da rua e, irrompendo de entre as mangueiras, atirou-se para o carro alegremente:  – Papai! papai!  

O cocheiro mal teve tempo de diminuir a marcha do animal e ela trepou para o estribo, enfiando no  carro a cara afogueada e risonha. O pai segurou-a, puxando-a para dentro, sem coragem de ralhar com  ela por aquela imprudência. Tentou falar, ela cobriu-lhe as barbas de beijos.  

– Que exuberância! – exclamou Caldas, rindo.  

Chegavam à porta do velho palacete dos barões do Cerro Alegre.  

No patamar da escada, o sogro do Argemiro, barbeado de fresco, com o seu corpo franzino dentro de  brins bem alvejados e o boné de seda preta seguro na mão fina e nervosa, sorria à espera dos hóspedes,  a quem abraçou.  

– Mamãe?  

– Espera-os na sala do meio. Entrem.  

Argemiro aprendera com a mulher a chamar a baronesa de mamãe; percebendo agora quanto aquele  título comovia o coração da velha, continuava a dispensá-lo de bom grado. Era como se a alma da morta  lhe passasse pelos lábios todas as vezes que dizia essas duas sílabas amadas.  

A baronesa era uma senhora gorda, alta, de lindos olhos negros e cabelos completamente brancos.  Tinha as faces flácidas, a carne do pescoço descaída, a boca larga, a testa curta e ainda roubada pela  espessura das sobrancelhas escuras. Cosia sentada em uma cadeira de balanço, ao lado de uma mesa  redonda, coberta de um pano escuro e onde floria em um vaso um ramo de crisântemos pálidos.  – Benvindos sejais! – exclamou ela com a sua voz forte, de contralto.  

Argemiro beijou-lhe a mão e sentou-se a seu lado. Caldas entreteve-se a conversar com o barão, que,  pedida a vênia, cobrira com o boné de seda os seus cabelos brancos e encaracolados.  – Então, meu filho, como acha sua filha?  

– Forte… muito alta!  

– Cresce de dia para dia! Se não vivesse no campo, com esta liberdade, não sei que seria… Precisa  ralhar com ela; está muito voluntariosa…  

– Tem a quem sair…  

– A mãe era um cordeirinho…  

– Mas a avó é enérgica. E eu…  

– Você é um homem. Sua mulher puxava toda ao tipo do pai; Gloriazinha saiu mais a mim… olhe para  aquelas sobrancelhas!…  

– Parecem uns bigodes! – retorquiu Argemiro para fazer zangar a filha. E depois de a beijar nos olhos:  – E a respeito de estudos?  

– Isso! fale-lhe nisso! É uma vadia de força… o avô não se cansa de a chamar e de ensinar-lhe as  lições. Mas santos de casa…  

– Pois chamemos os de fora. Vai buscar os livros, Glória.  

– Ora, papai… depois… eu…  

– O que ela quer é andar como os cabritos, aos saltos e correrias… eu, enfim, consinto nisso, porque  com aquele crescimento não deve haver sujeição… Graças a Deus, ela tem uma saúde de ferro.  – Por isso mesmo precisa ter outros modos… se a puséssemos em um colégio?  Pelos olhos da baronesa passou a sombra de um desgosto e ela disse:  

– Se quiserem matá-la…  

O barão protestou:  

– Isso nunca. Colégios nem para rapazes. São lugares de perdição. O que temos a fazer é interessá la pelo estudo.  

– Mas como?  

– Há de haver um meio… Ó Glória, vai tocar a tua última lição, anda. A professora de música não  está descontente…  

Glória amuou.  

– Eu não sei nada!  

– Como não sabes?! Vai tocar!  

– Não…  

– Glória!  

– Não…  

– Esta menina!  

Argemiro olhava para a filha com desgosto. A baronesa interveio:

– Depois do jantar teremos tempo; ela está com vergonha… manda servir o jantar, Glória; depois  tocarás…  

Glória aproveitou o ensejo e correu para o interior, onde daí a instantes soavam as suas gargalhadas  fortes, muito barulhentas.  

O pai informou-se, voltando-se para o sogro:  

– Como vai ela na leitura?  

O velho abanou a cabeça, sorrindo; mas a avó exclamou, dirigindo-se ao Caldas:  – Se ela quisesse! Não imagina o talento que aquela menina tem! Aprende tudo com uma facilidade  espantosa, de relance! Mas o diabo é que ela não quer! – asseverou o avô, rindo.  – Ora! não é tanto assim; o sr. Caldas é capaz de pensar que a nossa Glória é uma analfabeta!  – Quase.  

– Ora, não digas isso! Ela lê… e escreve… e demonstra muito jeito para a música. Afinal, não se  educa para doutora nem para professora. No meu tempo não se exigia tanto…  

– Não é razão. A mulher hoje precisa ser instruída, solidamente instruída, mamãe, e eu quero, eu exijo  que minha filha o seja.  

– Está direito, mas sempre quero saber se o sacrifício do estudo tem compensações verdadeiras!  Andar atrás de uma pobre criança o dia inteiro, fazendo-a conjugar verbos e compor e recompor orações  gramaticais, atirando-lhe para dentro da cabeça nomes de terras e complicações matemáticas; curvar-lhe  a espinha em cima de mapas e linhas geométricas, cansar-lhe a vista antes do tempo, roubando-lhe a  liberdade que dá saúde, alegria e ousadia, olhem que não me parece obra de amor nem de caridade! Eu,  cá por mim, confesso: fujo da sala de estudo quando vejo meu marido chamar a neta para a lição…  

– Eu imagino que ele há de ser muito ríspido… – comentou Caldas, sorrindo. Argemiro pegou nas  mãos da sogra e disse:  

– Mamãe, talvez a senhora tenha razão; mas a verdade é que Glória já chegou a uma idade em que  não deve ser tratada como o animalzinho amimado que é. Precisamos prepará-la para o futuro, que é  sempre incerto. Imagine que um dia, que infelizmente há de vir, faltem à nossa Glória os seus cuidados,  os do avôzinho e os meus… que será dela, se for uma ignorante, ela que é tão impulsiva e… tão geniosa;  hein?  

– Quando isso acontecer, para longe o agouro, sua filha estará casada!  

– Estará ou não. E se for mal casada? Se o marido esbanjar toda a sua fortuna e a atirar depois às  urtigas?  

Os olhos da baronesa encheram-se de lágrimas; o velho pigarreou, advertindo o genro que avançara  demais no caminho das hipóteses; mas a baronesa reagiu, sorrindo:  

– Glória casará bem, com um homem que a ame e a respeite. Não faltava mais nada! minha neta mal  casada! pobre… desprezada… precisando trabalhar para viver… que coisa horrível!  – O que é horrível, mamãe, não é trabalhar; é não saber trabalhar!  

– Ora… a necessidade é o melhor mestre; se algum dia… oh! não! nem pensar nisso!… A minha  Glória nasceu para ser amada. Eu leio naqueles olhos esse destino… É um pouco brusca… é um tanto  autoritária… ora adeus! os homens gostam disso.  

Riram-se e o riso abafou um suspiro em que o Argemiro murmurou:  

– Eu queria-a mais meiga.  

– Vovó, o jantar está na mesa! – gritou Gloriazinha do corredor, falando com a boca cheia. 

– Já ela me foi às nozes… não tenho remédio senão concordar com ela; é um diabinho e é assim que  eu a amo!  

Foi só à sobremesa que Argemiro declarou ter tomado uma governanta para casa, e querer daí em  diante ter uma visita da filha todas as semanas. Era um sacrifício para ele, homem tão ocupado, ir ali  amiúde. Assim dividiriam o trabalho.  

A sua Gloriazinha iria jantar com ele todos os sábados, que era o seu dia mais livre.  A sogra parecia aterrada.  

– Uma governanta!… quem a inculcou? – perguntou ela, mal disfarçando a sua má impressão. 

– Ninguém. – respondeu o genro placidamente; – arranjei-a por anúncio.  

A baronesa pulou na cadeira.  

– Por anúncio! meteu em sua casa, na casa da minha filha, uma mulher por anúncio! E quer confiar lhe a sua filha, durante as horas em que ela estiver na cidade! Oh! meu amigo, isto não parece seu!

– Que queria, mamãe, que eu fizesse! Quantas e quantas vezes lhe pedi que me ajudasse a arranjar  uma preceptora para Maria e que fosse ao mesmo tempo governanta da minha casa, e a senhora não se  quis nunca dar a esse trabalho… Afinal, eu não lhe roubo a neta. Maria da Glória irá só aos sábados. É justo que eu também goze um pouco da companhia de minha filha. Voltará no próprio sábado, ou no  domingo pela manhã…  

– Era só o que faltava… Glória dormir fora de casa, entregue a uma mulher saída Deus sabe de onde!  Uma mulher de anúncio! Uma… – a baronesa conteve-se; e depois de uma pausa, em que bateu com o  garfo na mesa: – É velha, ao menos, essa criatura?  

– É moça…  

– Hein?!  

– Tem vinte e poucos anos.  

– Não é possível, Argemiro, ter essa mulher em casa!  

– Por quê?!  

– Não é conveniente…  

– Pois já lá está. Entrou esta manhã.  

– Poderá sair esta noite…  

– Não. Eu já esperava esta tempestade, e pela milésima vez direi isto: eu não podia dispensar em  casa uma pessoa que soubesse dirigir os meus criados, coisa de que eu sou incapaz. Reparem bem  para o Feliciano. Veste-se no meu guarda-roupa, fuma os meus charutos, folheia as minhas revistas e  serve-se da minha carteira muito melhor do que eu! Os outros, por seu lado, roubam como podem e  trazem o serviço mal acabado, feito por favor… Além disso, eu quero ter minha filha à minha mesa, uma  vez por semana, ao menos, e não podia deixá-la só, entregue a homens, e que homens! Concordem que  não é exigir muito!  

– Pois sim! Fizesse tudo isso, mas arranjasse governanta respeitável, mulher idosa e com bons  certificados… Conheço o seu caráter, sei que não poria nunca minha neta em contato com uma… – Aí  tremeu o queixo à baronesa e ela concluiu sufocadamente:  

– Pobre da minha filha!  

Houve um silêncio constrangido. O barão interrompeu-o:  

– Bom, bom! Está tudo determinado: aos sábados Glória irá visitar o pai. É muito justo…  – A moça é bonita, papai? – perguntou Glória.  

A baronesa olhou para o genro com curiosidade.  

– Não sei… falei-lhe uma vez só, e ela levava a cara tapada por um véu lavrado, muito espesso. Mas  não me pareceu bonita; nem mesmo isso me importa. Quanto aos atestados, mamãe, ela deu-mos e  bons. O padre Assunção tomou algumas informações a seu respeito e todas excelentes. Está claro que  eu não tomaria levianamente uma mulher, a quem, embora por poucas horas, terei de confiar minha filha.  

– Eu preferiria que você desmanchasse a casa e viesse morar conosco… não sei o que parece ir uma  mulher estranha para o lugar de… minha filha…  

– Oh, mamãe, que lembrança! A senhora repare que esta é uma mulher mercenária, uma alugada,  pouco mais do que criada, não passa disso… O lugar de Maria é insubstituível no meu coração, bem o  sabe, melhor que ninguém. Quanto a eu morar aqui, isso é absurdo; preciso viver na cidade: os meus  negócios não me permitem este luxo do campo… Agora só lhe peço uma coisa: tomar esta minha  resolução como irremediável e aceitá-la, ao menos, por algum tempo…  

Glória assistira a toda a cena com muita atenção. O avô só no final se lembrou da conveniência de a  afastar. Caldas, um pouco constrangido, demorava-se a descascar a sua laranja, conservando um  silêncio discreto, e foi só depois do jantar que ele pôde convencer o barão a vender as suas terras ao  ministro para a formação da colônia suíça, exploradora dos laticínios.  

A baronesa retirou-se para o seu quarto, declarando uma enxaqueca súbita. Argemiro aproveitou um  momento para conversar um bocado com a filha.  

– Escuta, meu amor, por que é que tu não modificas esses teus modos de rapaz? Já estás crescida.  Ela abraçou-o com frenesi pelo pescoço.  

– Olha que me amarrotas o colarinho! – disse ele rindo. – Não me respondes?  

– Eu não sei!…  

– Gostas de ir jantar comigo todos os sábados?  

– Se gosto! Havemos de ir ao teatro, sim, papai?  

– Ainda é cedo… terás tempo…  

– Eu tenho uma vontade doida de ir ao teatro!…  

– Irás… irás, se fores boazinha e dócil a teus avós… teu avô queixa-se de que estudas pouco… não  quero isso.  

– Não gosto de estudar; não gosto e não quero.  

– Não quero?! não quero! então isso é coisa que se diga?! 

– É. Eu não quero mesmo! Se o papai soubesse como é aborrecido estudar! Outro dia fiquei com  tanta raiva que até rasguei o livro!  

– Oh!  

– Que espanto! Olhe, foi assim: vovô lembrou-se de me chamar, exatamente quando eu ia para a  horta ajudar a Emília a apanhar vagens…  

– É muito divertido apanhar vagens?  

– É mais divertido do que estar sentada ao pé de vovô, na sala, com a pena na mão ou o livro diante  dos olhos! Eu estava lendo e estava pensando na horta, estava escrevendo e estava pensando na horta,  estava fazendo contas e a maldita horta não me saía da cabeça!… Vovô ralhou comigo; eu não sei que  disse e ele levantou a régua para me dar… vovó entrou, zangou-se com vovô… Saíram os dois, eu fiquei  sozinha… um pouco arrependida… quis estudar… abri o livro, mas não sei o que é que tinha nos olhos,  que não via bem… então, desesperada, rasguei o livro…  

– O que tinhas nos olhos eram lágrimas, minha filha, lágrimas de remorso por teres respondido mal  ao teu avô, que te ama tanto, e teres sido causa de outro desgosto ainda maior…  – Oh! papai! – exclamou Glória, atirando-se de encontro ao peito de Argemiro, lacrimejante.  – O que me vale é que tens bom coração…  

Durante a viagem de regresso, Argemiro e Caldas falaram pouco. Um pensava na família, o outro em  negócios. Foi já quase no fim que Argemiro desabafou:  

– Preciso tomar uma resolução séria a respeito de minha filha. Viste bem como a educam? O avô não  sabe ser severo; a avó prejudica-a pelo seu excesso de amor, e a menina cresce cheia de vontades e à  lei da natureza! Se falo em colégio, arrepiam-se; se falo em trazê-la para mim…  

– Estás doido? tê-la contigo, como? Olha que eu não quis nem podia intervir naquela cena de família;  mas a tua sogra tem razão. Que diabo! uma mulher, arranjada por anúncio, pode lá tomar conta de  uma menina que está exatamente na idade mais delicada da mulher! Deixa a pequena com os velhos e  arranja-se uma preceptora inglesa ou alemã. Verás o milagre. Vocês custam a atinar com as coisas  simples! São uns complicados…  

– Talvez tenhas razão…  

– Por força. Eis-nos chegados. Aparece amanhã na Câmara, às duas horas; o Teles vai soltar o  verbo. Não faltes.  

Argemiro chegou a casa muito fatigado e entrou para o seu quarto. Estranhou logo ao  princípio qualquer coisa que não pôde determinar o que fosse, mas que o impressionou bem.  Ao pendurar a roupa no cabide de pé, viu que o tinham aliviado do grande peso de ternos de casimira,  que o Feliciano deixava acumulado ali semanas e semanas, por preguiça de os escovar e guardar.  Enfiando o robe-de-chambre, notou que lhe tinham pregado um botão que lhe faltava. E pensou:  “Realmente, só as mulheres sabem governar bem uma casa…”  

Sentou-se ao lado de uma mesa a ler um jornal, mas a folha descaiu-lhe das mãos e ele pôs-se a  olhar para um retrato da mulher, suspenso em um cavaletezinho de prata fosca. A saudade da sua  morta revivia todas as vezes que vinha de ver a filha; sentia-lhe a falta então, poderosamente. Se ela  vivesse! Ah, se ela vivesse correria tudo suavemente!  

Argemiro levantou o retrato e contemplou-o de perto. Quantas vezes beijara aquela fronte larga e  pálida, emoldurada por cabelos loiros, que tão mal se adivinhavam na fotografia! Que pena não ter Glória  herdado a finura daquelas feições, tão bem delineadas, tão puras, nem a doçura daquele caráter, que só  o ciúme conseguia agitar. Pobre ciumenta, quantas torturas inventara para seu martírio! Que imaginação  a dela para criar fantasmas de amores…  

Argemiro cerrou os olhos, depondo o retrato sobre a mesa; e calculou: se ela fosse viva  estaria agora com trinta e dois anos… teríamos um rancho de filhos… um rapaz… Tanto desejei  um rapaz!… e Maria teria outra educação… Pobre da minha filha, foi a sacrificada!…

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