A Intrusa | Capítulo X
Era uma fortuna cair o aniversário de Maria num domingo. Sempre era um dia roubado à companhia da outra. O consumidor ciúme trazia a baronesa doente, de uma tristeza sem remédio. Os beijos da neta sabiam-lhe a falsidade, os seus abraços, amolecidos, tinham perdido o ímpeto selvagem dos tempos de que a via ir fugindo tão depressa. Qualquer dia levá-la-iam de todo, sem que nem ela ao menos voltasse a cabeça para trás, para um último sorriso…Nem por ser exercitado no amor, o coração deixa de desvairar se o contrariam!Às vezes, para o desabafo, a queixa subia-lhe aos lábios descorados; mas o marido, inflexível, acudia logo, com a crua lei do destino:– Acostuma-te: mais tarde ela terá de acompanhar o marido, como a avó acompanhou o avô, e a mãe acompanhou o pai.E ela, então, gemia desconsolada:– Até lá, onde estarão os meus ossos! – como se a idéia da morte a tranqüilizasse.Se os pensamentos a atormentavam de dia, à noite perseguiam-na os sonhos. Alice, sempre a Alice, apresentava-se-lhe sob diversas formas, mas sempre com as mãos que nem garras.A insistência da idéia penetrava-a de crenças novas. Debateu-se em vão, concentrada no seu canto, com os olhos no retrato da filha, que o tempo ia desvanecendo num descolorido suave. Assim se atenuasse na sua alma a dor, como aquela sombra no papel! Por que há de haver coisas eternas na vida transitória? Já viu alguém refletir-se uma imagem com fixidez em águas de grande correnteza? A vida não faz outra coisa senão passar, e a dela então imobilizara-se num momento de horror? Uma noite, em sonhos, a filha apareceu-lhe lavada em pranto. Seus olhos, como dois ramos de miosótis inundados, vinham varados pela tristeza moça do amor. Não houve outra queixa. A mãe compreendeu-a. Era tempo de agir. Consultaria os espíritos, já que na terra não a ajudava ninguém.Lembrou-se de uma tal d. Alexandrina, da estação do Rocha. Contavam-se dela maravilhas, revelações estupendas!Preparou-se cedo. Vendo-a sair do quarto, de chapéu e de capa, o marido espantou-se, tão raramente ela punha os pés na rua.– Vou à missa pedir a Deus saúde e juízo para Glória. Ela faz anos hoje…– Sei…A baronesa não sabia mentir.Ao mesmo tempo que falava, as faces tingiam-se-lhe de vermelho. Mas o marido não deu por tal; e ela saiu. D. Alexandrina morava num sobradinho estreito, onde a baronesa entrou envergonhada. Fizeram-na esperar numa salinha de jantar atravancada por uma mesa coberta por um pano de aniagem, de franjas sujas, uns caixotes acolchoados, à guisa de divãs.Nas paredes, colados sobre os mandarins do papel desbotado, cromos de folhinhas e uma gravura representando o Marechal Floriano Peixoto. Depois de alguns minutos de espera, entrou d. Alexandrina, uma mulherzinha magra e morena, quase sem queixo, de olhos redondos.A baronesa entrou, seguindo-a, para uma alcova, onde ardia uma lamparina em frente a um oratório. Como na sala de jantar, havia ali profusão de imagens coladas às paredes; somente, estas eram apenas de santos. Uma cortina de chita corrida encobria um leito de que se viam somente os pés. Ao cheiro do óleo da lamparina juntava-se o de manjericão, num copo.D. Alexandrina retirou um baralho de cartas de uma gaveta, pousou-o sobre a mesinha redonda, junto à qual se sentaram e, pedindo com um gesto à baronesa que esperasse, voltou-se para o oratório e rezou baixo, com os olhos e o queixinho a tremer-lhe.Finda a reza, a cartomante pediu à baronesa que partisse o seu baralho, de grandes cartas, e começou a operação.– A senhora tem uma inimiga… A baronesa fez que sim com a cabeça.– É uma mulher má, que abusa da sua confiança…– Da minha confiança?!– Repito o que está nas cartas… A senhora tem a receber uma grande herança…– Não…– Sim… daqui a um ano… Mas deve mudar-se da casa em que está, antes que lhe suceda um desastre… A sua inimiga é moça, é bonita e é pertinaz; ela alcançará tudo que deseja, se a senhora não se atravessar no seu caminho… Ela finge amar seu marido, por cálculo…– Meu marido, não… meu genro! – retificou a baronesa, ofendida.– A carta… diz um cavalheiro que a interessa… cuidei que se tratasse de seu esposo. Será seu genro…– Pode saber-se quais são as suas intenções?– Ser amada por ele e explorá-lo.– Eu já desconfiava!…– Não se apoquente… ela será desmascarada a tempo… Não é livre… ama um rapaz pobre… com quem se encontra furtivamente… A senhora receberá uma carta…– Que mais?– O mais não digo; a senhora poderia ficar impressionada, sem vantagem… Seja prudente… queime a carta que receber… e esteja alerta… não convém intervir já… espere um pretexto, que não se fará esperar muito… a sua inimiga tem recursos…– Se tem!– E já conseguiu muita coisa… Recomende a seu genro cuidado, sobretudo com uns papéis lacrados que ele tem encerrados em um cofre!– Tenciona roubá-lo?!– Por hoje não lhe posso dizer mais nada – concluiu d. Alexandrina, cerrando os olhos.A baronesa saiu tonta. Era a primeira vez na sua vida que se abalançava para consultar uma adivinha. Envergonhava-se do seu ato; o marido censurá-la-ia… fora ali buscar um pouco do sossego e saía em maior confusão – aterrada!Fizera mal até então em não acreditar nas cartomantes: como pudera aquela adivinhar a existência da inimiga e as suas idéias perigosas? Mas, por que não lhe dera a ponta da meada, por onde ela pudesse desfazer toda a teia? Tinha que esperar uma carta e só depois dela lida e desfeita em cinzas teria de entrar em cena! Entretanto, a outra iria tomando inteira posse do coração de Argemiro, que ela queria só cheio do amor e da saudade da filha!Era por causa daquele coração que a sua doce Maria lhe aparecera banhada em lágrimas! Havia de lutar até restituí-lo à morta!O carro entrava agora na larga rua das mangueiras da chácara, quando a baronesa viu o Feliciano a pé, sobraçando um grande embrulho. Ela fez parar o carro e chamou o negro.– Feliciano! Bote esse embrulho aqui
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