abril 2023

Anjo Noturno | Capítulo 08

Entrou na casa pela janela do seu quarto de modo cuidadoso para não fazer nenhum tipo de som alto já que o quarto de sua mãe ficava do outro lado da parede. Se livrou do uniforme com rapidez, não aguentava mais o cheiro de queimado que vinha do tecido, parecia que foi defumado assim como um presunto. Por enquanto, para disfarçar aquele cheiro impregnado no traje, lhe daria um belo banho de perfume e quando pudesse passaria na casa de Leandro, quando o amigo estivesse sozinho, então usaria sua máquina de lavar e a secadora. Depois de vestir um par de roupas velhas que sempre usava para dormir, como estava faminto e com sede, Miguel foi até a cozinha onde, depois de iluminar o pequeno cômodo ao apertar o interruptor, encontrou vários envelopes espalhados pela mesa redonda. Se tratavam de várias contas atrasadas, água, luz, internet e etc. Contas de meses trás, tinha a noção de que as coisas para ele e sua mãe não estavam exatamente boas, porém não tinha a noção que se encontrava naquele nível. Sentou a mesa e ficou revendo e relendo aqueles boletos bancários, enquanto estava brincando de super-herói pela a cidade, sua mãe estava passando por verdadeiros maus bocados. A voz de Combustor começou a martelar em sua mente, lhe afirmando que não passava de uma criança brincando no meio de algo muito sério, entretanto em sua cabeça o “algo sério” não era mais a história pessoal e os motivos pelos quais o incendiário estava fazendo tudo aquilo e sim o problema da sua mãe. Mais um impasse em sua carreira como super-herói? Com certeza. A voz do incendiário começou a ecoar em sua mente, afirmando que ele não passava de uma criança brincando em meio a assuntos de adultos, neste caso os assuntos de adultos se tratava da sua vingança contra os médicos do hospital onde a sua esposa morreu na fila de espera. Quando percebeu o sol já estava nascendo, acabou que não dormiu aquela noite e se encontrava muito cansado para ir à escola. Assim que voltou para seu quarto, mandou uma mensagem para seus amigos dizendo que faltaria aula naquele dia e se jogou na cama, completamente exausto. Miguel se encontrava em um campo florido, nunca esteve naquele lugar, parecia algo lírico, mágico, com certeza se tratava de um sonho e o que mais reforçava a ideia era a de que a última memória do último jovem era de que ele caiu em sua cama. Avistou uma silhueta masculina muito conhecida se aproximava dele, conforme se aproximava ficava mais evidente que se tratava do seu pai. Simão dos Anjos. Simão era um homem alto, cabelos escuros assim como os do filho e caucasiano. Sempre tinha esse sorriso amistoso em seu rosto. — Pai? — perguntou o adolescente, agora com mais noção de que se tratava de nada mais que um sonho. — Nossa, como tu cresceu Miguel, meu filho. — sorriu ao ficar de frente para o filho. — Tanto tempo que não nos víamos assim. — Como você está aqui? — Meu filho, você é mais esperto do que isso, eu sei disso, tu sabe como estou aqui. — Simão riu ao terminar a frase. — Parece que está com sérios problemas. — Pai, eu não sei o que fazer, eu quero muito continuar sendo o Anjo Noturno, mas também quero muito ajudar a mamãe com seus problemas financeiros. Primeiro eu comecei a fazer isso pensando em você e agora faço porque me sinto bem, mas ver a minha mãe com esse problema não me deixa bem! — A sua mãe é bem mais forte do que tu pensa, Miguel, mas concordo contigo sobre ter que ajuda-la com dinheiro. Converse com ela, diga que quer ajudar naquelas contas, não precisa desistir dessa sua outra vida, parece que tu ajuda muita gente. — Prefiro pensar que sim. — disse Miguel. — Também tem dias que não sei se só estou atrapalhando ou sendo uma criança brincando com coisas sérias. Simão riu da última frase. — Não foi, mais ou menos, isso que aquele cara do fogo te disse? — Como você sabe? — Eu sou um fantasma, filho. — o pai riu mais uma vez e em seguida continuou a falar. — Teus inimigos vão querer te atingir, psicologicamente, fisicamente ou até mesmo pessoalmente, cabe a ti deixar que isso te afete ou não. Miguel soltou um suspiro. — Eu vou conversar com a mamãe, claro que não vou citar a parte de eu ser um super-herói, mas vou conversar com ela. — Tenho orgulho de você, Miguel, de verdade. — o pai disse sorrindo de orelha a orelha, Miguel ficou feliz, mas também desconfiado. — Como vou saber se você só não é a minha consciência falando isso? — perguntou o filho. — No fundo você sabe que não. Miguel e o pai se abraçaram. Quando abriu seus olhos sentiu o sol quente da tarde invadir seu quarto, já passavam das quatorze horas, sua cabeça doía por causa do descanso precário. Quando saiu de cima da cama a primeira coisa que fez foi pegar seu celular, muitas mensagens atolavam a tela de notificação, eram dos seus amigos e parceiros da vida heroica. Leandro e Daniela estavam afoitos preocupados e perguntavam, repetidas vezes, com algumas ameaças, se estava tudo bem com Miguel. Ouviu um barulho alto vindo da porta da frente, alguém havia batido, mas o som se assemelhava mais com um soco. Mas duas batidas furiosas. Miguel levantou da sua cama e caminhou até a sala com passos lentos, não tinha certeza do que poderia ser por causa da força com que bateram na porta. Mais uma batida forte e em seguida uma voz conhecida. — Miguel, você está em casa? — era Daniela. O nosso super-herói suspirou e logo abriu a porta, Daniela não estava com uma feição amigável, foi logo entrando na casa. — O que você estava fazendo? Leandro e eu estávamos preocupados com você,

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A Intrusa | Capítulo VI

Desde que fora entregue aos avós, era a primeira vez que Maria da Glória dormia fora de casa. A baronesa morria de impaciência por vê-la voltar; à tristeza da ausência juntava-se um cuidado que a punha doente. Que teria sucedido à sua netinha, longe do seu carinho e da sua vigilância? Se ela chegasse com febre! Que ideia maldita a de tirarem a criança dali, para a meterem na cidade, por uma noite inteira!Mas a Maria chegou alegre. Saltou do carro sobraçando um grande embrulho de pastéis. A baronesa estendeu-lhe os braços, com os olhos luzindo de alegria.– Vem, meu amor! Eu estava com tantas saudades! Coitadinha…– Coitadinha por quê, vovó?! Eu estou boa. Gostei muito!– Ah, gostaste muito… Então não tiveste saudades minhas…– Tive, mas gostei. Tome estes pastéis, são muito bons!– Eu também tenho um doce guardado para ti.– Onde está?– Depois… escuta, conta-me o que fizeste.– Passeei com papai, toquei, brinquei… já disse: gostei muito!– E…– E… e o quê?!– A tal… a tal mulher, como a achaste?– D. Alice? É tão boa! sabe? ontem ela me ensinou a fazer crochê e deu-me depois a agulha e o novelo de lã!– Ora, que prenda, crochê! Eu não aprecio isso. Ela é bonita ou feia?– É bonita!– Ah…Maria percebia bem que a avó não estava contente; mas continuava a açular o seu ciúme, com maldade.– Tomaste banho hoje?…– Tomei. Foi d. Alice quem me penteou. Sábado voltarei para lá, sim, vovó?– Já?! mal chegaste já pensas em voltar!– D. Alice pediu…– Ora, d. Alice!A baronesa retinha a neta a custo entre os braços. Maria tinha pressa de ir ver os coelhos e verificar se lhe tinham apanhado uma bela manga rosa que ela trazia de olho havia dias…– Sossega, menina! Olha para mim!– Estou com pressa…– Deixa-me tirar a faixa… como este laço vem mal dado… não hás de ir com este vestido para o quintal! Que penteado! Logo se vê que a tal mulher não tem jeito para tratar de crianças! – Como não tem?! É tão delicada…– Dize-me cá: em que quarto está dormindo?– No quarto azul…– Da sala de jantar?!– Não. Em cima, aquele do terracinho.– O gabinete de trabalho de Maria! Será possível? Para uma empregada, um quarto tão bonito… E tu, onde dormiste?– Ao pé dela.– Na mesma cama?!– Não; mas no mesmo quarto…A baronesa suspirou. Ela não pudera conciliar o sono, em frente à cama vazia da neta! E a criança ingrata, ao lado da inimiga, nem pensara nela! O trabalho da baronesa seria agora afastar Maria quanto possível da idéia de voltar à cidade. Disputá-la-ia à outra, a ferro e fogo. A verdade é que Maria exagerava a sua simpatia por Alice, por perceber o desgosto da avó, assim como se comprazia em torturar Alice na ausência da baronesa…No meio dessa semana o Feliciano foi, a mandado de Argemiro, levar uma carta à chácara dos velhos.Glória corria pela chácara; o barão lia sob o alpendre e a baronesa, a seu lado, cerzia meias, sossegadamente. O negro, todo emproado e bem vestido, entregou a carta à velha, que foi a mais pronta em estender a mão.– Então, Feliciano, como vai tudo por lá?O negro sorriu, meneou a cabeça e calou-se.– Que temos? – indagou o barão.– Uma carta do Argemiro; pede-me que não me esqueça de mandar Maria no sábado!– Pois lá a levarei.– Não pode ser. Vou no domingo com ela à Tijuca; já está isso decidido.– Tijuca! Que idéia é essa?– É uma idéia como outra qualquer! Estou sempre como os caracóis metida em casa, e quando falo em sair lá vem tudo abaixo!– Estimo que saias; mas que diabo! Vai noutro dia à Tijuca e deixa a pequena ir ver o pai no sábado, como se combinou.– Há muitos sábados; neste ela não poderá ir. Ele que venha jantar conosco no domingo. Eu vou jantar à Tijuca com a minha neta e voltarei às quatro horas para casa. É uma promessa.– O Argemiro pode ficar sentido…– Que fique. Eu preciso mais da neta que ele da filha. Lá tem outras consolações…O Feliciano sorriu e aprovou com a cabeça. O barão levantou-se e foi para o escritório re- sponder ao genro. Antes mesmo que a baronesa perguntasse qualquer coisa, o Feliciano resmungou:– Aquela casa já não parece a mesma… se a senhora visse! Até me dá saudades de quem está no céu!… Pobre de quem morre!A baronesa sufocou o desejo de indagar do criado aquilo que mais queria, e recomeçou a trabalhar, limitando-se a oferecer:– Entre, Feliciano; vá lá dentro tomar uma xícara de café.– Obrigado; tomei lanche lá em casa antes de sair… apesar de que agora anda tudo muito contadinho…– Isso é bom. O tempo não está para estragos…– Sim, mas poupa-se de um lado para se gastar do outro; afinal, para o patrão as despesas talvez sejam maiores… D. Alice tem uma récua de parentes pobres… Para a gente às vezes o pão não chega, entretanto não bate bicho-careta na porta que ela não dê do bom e do melhor do armário. Até vinho. – Até vinho! – exclamou inconscientemente a boronesa; e logo, reprimindo-se: – A caridade éaconselhada por Deus…– Mas deve começar por casa… A senhora não diga nada ao patrão, porque ele agora é só: d.Alice na terra e Deus no céu!– Ah…– A senhora sabe que eu sempre fui um empregado de confiança, que punha e dispunha de tudo como entendia; pois hoje não posso mover uma palha, que não me tomem satisfação. Ela, com o seu modo de santinha, faz tudo quanto lhe dá na cachola! Eu não gosto de falar, mas… há certas coisas… ontem não afirmo, mas pareceu-me que d. Alice trazia no peito um alfinete…A baronesa pousou a costura nos joelhos e levantou os olhos para o negro.– A senhora não se lembra de um alfinete que iaiá sua filha gostava de usar e que representava uma andorinha de pedras?A velha corou até a raiz dos cabelos e

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Anjo Noturno – Capítulo 07

Estava começando a se acostumar com a calmaria que fazia no céu, principalmente durante a noite. Com uma vista privilegiada daquele bairro nobre, o super-herói conseguia ver, sem precisar contar, que a iluminação publica se fazia mais numerosa ali do que no bairro em que vivia com sua mãe. Por que não haveria mais luz ali, não é verdade? Afinal tem casarões e mansões, clubes para tomar um banho de piscina ou de sol. A proteção policial também era maior ali. Não se tornou um super-herói para proteger ainda mais quem já tinha proteção, queria ajudar os que precisavam, entretanto havia um louco incendiando casas e veículos, se não acabasse com aquilo pela a raiz em pouco tempo, talvez, esse mesmo vilão estaria atacando os que não teriam como se defender. Ficou sobrevoando o local, em alguns momentos ficou sentado em lugares altos esperando algo acontecer. Depois de duas horas procurando e esperando, Anjo Noturno ficou sentado na borda do prédio do vestiário de um clube que havia naquele bairro, observando a piscina que ficava ali perto, a luz no fundo refletia os cristais de água em seu rosto. — Brilha la luna, oooh, mira que bela… — suspirou depois de cantarolar, entediado e ansiando por algum tipo de ação inesperada. Dentro da bota lilás direita, o aparelho celular de Miguel começou a vibrar. Depois de retirar sua bota, pegou o smartphone e antes de atender a ligação viu o nome da tela, era o seu amigo Leandro, então atendeu a ligação. — Leandro, por favor, me diga que aconteceu alguma coisa porque aqui está um tédio. — O nosso cara, o Combustor, ele está em um bairro perto daí tocando fogo em tudo. — disse o jovem japonês do outro lado da linha. — Espera… O quê? Como descobriu isso? — perguntou o super-herói enquanto ficava em pé. Surpreso com aquela informação. — É uma longa história, voe o mais alto que puder, com certeza vai ver a fumaça. Siga ela, então vai achar o nosso vilão. — Tudo bem, obrigado Leandro. Miguel encerrou a ligação e em seguida bateu suas asas, levantando voo e subindo o mais rápido que podia. Não demorou até enxergar a fumaça que vinha de alguns quilômetros a frente, literalmente as coisas estavam pegando fogo naquele lugar. A fumaça parecia estar saindo de um local especifico e quando mais se aproximava mais dava para notar de que se tratava de uma casa inteira em chamas. Uma mulher estavam em frente a casa, abraçado em um trio de adolescentes, os quatro em prantos. Todos os vizinhos de rua, e outros das demais ruas, estavam assistindo aquele drama. Provavelmente alguém tinha morrido durante o incêndio, ou seja, Combustor deveria ter alcançado seu objetivo ali com sucesso. O som das sirenes do caminhão dos bombeiros aumentava de forma gradual, conforme se aproximavam da casa. Quando batalhava com O Messias, podia sentir a energia de o cristal roxo emanar pelo seu corpo, então isso queria dizer que se esse novo super-vilão fosse fruto do mesmo objeto, conseguiria sentir a sua energia. Só precisava se concentrar e buscar uma maneira de fazer. Tinha conseguido aprimorar seu controle da energia com o tempo, esse era somente mais um obstáculo. Com seus olhos fechados, sentiu uma energia em uma movimentação rápida perto dali, parecia ser diferente da que ele sentiu quando enfrentou O Messias, mas mesmo assim dava sinais de ser o homem que incendiou a casa. Suas asas negras abriram e com urgência subiu ao céu, seguindo aqueles instintos novos que ganhou depois da chuva de meteoros. Não demorou muito para que encontrasse o vilão correndo pela rua, indo em direção a um carro que estava escondido atrás de uma placa. Se tratava de um homem comum, provavelmente na casa dos 40 anos e usando um sobretudo. — Peguei você. — sussurrou o super-herói. Disparou, três vezes, esferas de energia na direção do criminoso, acertou suas costas e deixou um buraco no sobretudo, além de fazer com que o homem caísse de bruços no chão. Pousou ao lado do vilão, com passos curtos ficou de frente para o homem que, com dificuldade, tentou levantar e no fim ficou de joelhos por causa da dor que sentia nos músculos de suas costas. — Pensava que você era só um mito da internet. — Para o teu azar eu não sou. Agarrou o homem pela a gola do seu casaco sobretudo e o carregou para o alto, somente o soltou quando pousaram sobre o teto do edifício mais alto encontrado pelo super-herói. Quando soltou sua gola, fez com toda a força que conseguia fazer, o jogando contra o concreto. — Agora vamos conversar um pouco. — começou a dizer o anjo de asas negras, criando uma luz roxa em sua mão direita para ameaça-lo com seus superpoderes. Era evidente sua falta de conhecimento sobre aquele assunto, estava tentando passar uma posição de poder sobre aquele vilão, entretanto sua juventude e a sua estatura ficavam em mais evidência do que qualquer outra coisa. — Por que estava ateando fogo naquelas casas? — se aproximou um pouco mais, pondo seu punho mais perto. — Acha que me assusta? Hein guri? — Combustor levantou do chão, ondas de chamas começaram a rodear seu corpo como se fossem explosões solares. Anjo Noturno deu dois passos para trás, um pouco assustado. — Tu não passa de um piá que ainda nem deixou as fraldas, fede a leite e quer fazer justiça? Não sabe do que justiça se trata, seu fedelho! As chamas começaram a caminhar pelo seu corpo com mais rapidez, seus cabelos e olhos pegaram fogo, esferas de calor tomaram conta dos seus punhos. — O que… — sussurrou Miguel tentando escapar do calor que começou a preencher o espaço entre eles, começava a suar e estava difícil aguentar aquele traje em seu corpo. — Quer saber o motivo de eu tacar fogo naquelas casas? Eu vou te contar, o meu motivo é o mais

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A Intrusa | Capítulo V

Argemiro ouvia um constituinte no seu escritório da rua da Quitanda. A causa era chocha; o homem expressava-se mal, perdendo palavras sobre palavras. O advogado deixava-o falar, olhando silencioso para os raminhos azuis do papel reles, como se pedisse às paredes encardidas a paciência de que deviam estar impregnadas.Efetivamente, toda aquela casa, onde o cupim voraz trabalhava de parceria com os médicos especialistas, advogados e solicitadores, parecia derrear-se ao peso da sabedoria e da malícia.À noite, fechados os escritórios e cubículos, os ratos, passeando por aqueles corredores e alcovas desertas, comentariam as chicanas, as mentiras e os segredos com que a ciência transfigura a verdade e uns homens enganam os outros… E não seriam poucos os ratos, porque às vezes, mesmo em plena luz do meio-dia, surgia de qualquer canto obscuro o focinhito agudo de um desses roedores mais curiosos, como a querer tomar contas do que se passasse; e a sua morrinha vagava na casa, de frente a fundo, enchendo-a como uma alma.O constituinte de Argemiro voltava ao princípio da sua exposição; temia ter esquecido algum detalhe precioso, e a consulta era cara… Foi num desses pontos de repetição que o criado apresentou ao advogado um cartão da Pedrosa.– A mulher do ministro!Argemiro abotoou o colete de fustão e prometeu ao homenzinho que faria tudo por ele, mas que se fosse embora!…O outro atropelou as últimas perguntas e marcou nova entrevista.Através da meia parede de tabique ouvia-se, na sala próxima, o frou-frou das sedas abafadas em lãs e um sussurro de vozes femininas. Logo, a Pedrosa não viera só… Argemiro não a via desde a noite em que fora cumprimentar o marido pela sua nomeação. Que a traria ali?O aroma do Bouton d’or introduzia-se pelas frinchas das portas, invadindo tudo, soberanamente.Argemiro considerou aquele aroma como muito indiscreto, mas gostou.A Pedrosa afinal… Ora, com que então estava no seu escritório a mulher do ministro!… ele ajeitou o nó da gravata e foi recebê-la à porta. Ela entrou logo, com o olhar repreensivo, o busto empertigado e um sorriso amigo na boca descorada. Atrás dela vinha a filha, muito espigada, mais alta que a mãe, com um arzinho petulantae no rosto claro, de feições miúdas.– Seu mau! então é preciso que a gente o venha ver aqui?!– Oh, minha senhora…– Não se desculpe, nem me agradeça a visita.Daí rompeu a falar, queixando-se de não ter o marido um minuto de descanso que lhe permitisse tratar dos seus negócios particulares, vendo-se ela na contingência de intervir, como fazia agora, a contragosto… Ia consultar o advogado e o amigo…Argemiro agradeceu.Enquanto a Pedrosa remexia na sua bolsinha de camurça, procurando um documento qualquer, o advogado olhou para a Sinhá, que não desviava o olhar de cima dele, numa expressão perturbadora, de mulher amorosa.“Diabo!” – pensou ele consigo.A consulta representava um pretexto. O negócio dispensaria a intervenção do advogado; todavia, a Pedrosa parecia não se importar de passar por estúpida; repetia as perguntas com uma dificuldade de compreeensão que dava tempo à filha de espichar a alma pelos olhos afora.Mas o coração do viúvo parecia fechado a sete chaves e duro como uma pedra. Sinhá levantou- se, deu um giro pelo escritório, riu, falou, interrompeu a mãe e sentou-se depois mais perto de Argemiro, deixando-lhe cair de encontro a um joelho, por descuido, a sua linda sombrinha de seda e rendas brancas.Como o assunto da consulta já não desse de si, a Pedrosa embarafustou por outras portas: as últimas récitas do Lírico, o jantar do presidente, o casamento do Ângelo Barros… aquele Ângelo que dizia ter feito também o juramento de ficar solteirão!E, a propósito, a Pedrosa perguntou ao Argemiro quando teria de assistir ao seu…– Eu já me casei, minha senhora…– Sabemos; mas ser viúvo é como ser solteiro…– Estou velho…– Pois sim, a verdade é que eu conheço mais de uma moça bonita que se daria por feliz se o senhor a escolhesse… Olhe, na festa da apresentação de Sinhá, houve uma que ficou enfeitiçada pelo senhor.Mãe e filha trocaram um olhar e riram alto. Depois, a Pedrosa continuou:– É raro o homem que enviuva que se não torne a casar; o que é a melhor prova a favor das mulheres… Ora, o seu coração por que há de ser mais insensível que os dos outros? Um segundo casamento é ainda uma homenagem ao primeiro… Só procuramos repetir os atos que nos trazem felicidade…– Será assim, mas o meu coração é pequeno para as saudades que tenho. Está todo ocupado pela minha morta…Sinhá levou o lenço ao rosto e uma nuvem de Bouton d’or adejou pela feia sala do escritório.Argemiro percebeu o movimento e deliciou-se com o aroma. Que significaria aquele gesto? Colheria o lenço uma lágrima ou disfarçaria um sorriso? Seria ele realmente amado por aquela criança, ou simplesmente preferido por aquelas mulheres como um marido de posição? Deveria ter pena, ou deveria ter nojo?Ah! a pobre Sinhá talvez não tivesse culpa; quem era odiosa era a mãe, que assim o vinha provocar no lugar do seu trabalho arrastando pelos degraus carunchosos daquela casa de homens, a sua filha solteira, apenas saída do colégio! Mas a verdade era que o olhar da pequena perturbava-o, mais pela sua expressão, que pela sua fixidez. Obedeceria ela à sugestão da mãe, ou agiria a mãe em obediência a uma súplica da flha? Argemiro, apesar de lisonjeado na sua vaidade de homem, começou a desejar a saída das duas senhoras; mas a Pedrosa não parecia apressada e entrou pela seara da política, como entrara pela do amor. Acertou no ponto de fascinação. Ela estava bem informada; Argemiro abriu ouvidos curiosos e dobrou-se na cadeira para escutá-la de mais perto. Ela era indiscreta, por ser com ele… pedia segredo de algumas afirmações, mostrando-se de vez em quando em oposição a atos do marido…– Pedrosa morre por servi-lo em qualquer coisa… veja se inventa um pedido, para contentá-lo…– concluiu ela, levantando-se com um arzinho malicioso nos olhos espertos.Sinhá imitou-a, quebrada de languidez, como desanimada…Argemiro observou-a de face;

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