fevereiro 2024

Uma Lágrima de Mulher | Cap 08 até 10

8 Foi-se passando o tempo e o recém-chegado sem explicar a melhora da situação.Também as mulheres não se animavam a interrogá-lo; compreendeu a boa gente que tinha melhorado de sorte, e a Madona por isso recebeu nessa noite uma grinalda nova toda perfumada.Com efeito Maffei tinha enriquecido.Em principio encontrou em Rezina a sorte adversa; porém, com energia e ambição soubera poupar e avultar um pecúlio, que, emprestado a juros e especulações mais altas, em pouco tempo se multiplicara. A economia rigorosa concluiu a obra, crescendo na razão direta do engrandecimento do capital.Outros atribuíam a um princípio ilícito essa riqueza; aqui diziam que Maffei roubara; ali, que a fortuna o protegera, fazendo-lhe achar dinheiro nas escavações.Sabemos que em Herculano não apareceu muito em dinheiro, porque a população tivera tempo de fugir, quando a cidade foi submergida; também sabemos que em Nápoles ninguém se queixava de Maffei como ladrão, mas o que era patente e real é que o pai de Rosalina voltava rico, mais ambicioso e necessariamente pior de coração.Luzia-lhe agora com mais intensidade no olhar a cobiça vermelha e sinistra, como um farol no meio da tempestade.E não havia porventura uma tempestade naquela cabeça? Sim! Porém toda interior.Não se ouviam os trovões nem os vendavais, a revolução ia-lhe por dentro e só chegava à superfície da fisionomia desfeita em espuma biliosa nos cantos arqueados da boca e em sangue mau no vítreo dos olhos.Isso era nos momentos de cólera.À monotonia bondosa da casinha branca sucedeu a tristeza, espécie de pavor, que cerca o homem de má catadura.Contra ele principiavam já a murmurar, na ilha, e, se até ali tinha tido poucos amigos, nenhum desses lhe restava agora. Em geral o malqueriam, davam-lhe a paternidade de coisas horríveis; crimes medonhos, maldades atrozes, tudo servia para explicar a sua imprevista fortuna. Todavia, se bem que contrariado e só, ia ele vivendo, falava menos e com mais indelicadeza; durante o sono, balbuciava palavras singulares. Frenético e aborrecido, agitava-o sempre a mesma impaciência e o mesmo cogitar.Quais seriam as suas intenções?…Não o sabiam as mulheres, nem se animavam a perguntar-lho.Com todas estas coisas ia avultando a tristeza na casinha branca. Rosalina já não era a mesma cotovia alegre e buliçosa, cantadora e risonha; se cantava agora, era triste e suspirando. E as suas notas e suspiros iam, repassados de muita saudade, em busca de Miguel, que, ao chegar o seu velho inimigo, arrancara-se dali, como o galho despartido que o furacão arremessa com estrondo ao longe.Ângela, cada vez mais devota, passava agora a maior parte do tempo a rezar.Desconsolado se tornara esse lar, que já nalgum tempo fora vivo quadro de paz e felicidade.Agora o quadro era sombrio.Três únicas figuras formavam o primeiro plano. – Um velho áspero, que cisma – uma devota, que reza – uma filha, que suspira; e lá, no último plano, meio escondido nas névoas do poente, um vulto esbatido nas meias- tintas do horizonte – um homem, que chora abraçado a uma rabeca. Ah! ainda há no quadro uma forma negra, mais um borrão que uma figura – o cão.Também vivia triste e chorava o animal, que em noites de luar soltava uns uivos tão arrastados e queixosos, que enterneciam o coração da gente. 9 Assim decorreram duas estações, impregnadas, com a vinda de Maffei, de aborrecimento e marasmo.Uma noite, estavam todos reunidos em volta da mesa; era a hora da ceia. Rosalina servia, preocupada, um prato de peixe com lentilhas; reverberava-lhe nessa ocasião uma esperança na alma, tinha de todo resolvido falar ao pai a respeito de Miguel.Ângela conhecia os planos da pupila e prestava-se, se fosse necessário, a ajudá-la.A refeição passou-se silenciosa; ao terminarem-na, quedaram-se por meia hora, imóveis nos seus lugares, mudos.Ouvia-se lá fora bater o vento nas oliveiras, ouviam-se as cantigas longínquas dos pescadores nas praias opostas. Rosalina, com as mãos frias, trouxe a Maffei o cachimbo.O velho pôs-se a fumar voltado para o lado da rua e a seguir com a vista o caminho, que lhe nascia à porta. Estava sombrio como nunca.Faltava a Rosalina ânimo de falar ao pai; finalmente, tomando uma resolução extrema foi-se-lhe encostar ao grosseiro espaldar da cadeira.O homem de tão preocupado não se apercebera disso; um beijo da filha despertou-o, porém não o comoveu. Refratário à ternura, continuava secamente a fumar.Rosalina, cujo coração pulsava cada vez mais impetuosamente, passou-lhe um braço em volta do pescoço, e, com a mão livre messando-lhe os cabelos; entre o receio e o desejo, mais medrosa do que terna:– Estou triste!– Por quê? – interrogou indiferentemente o pescador. Ângela ouvia com interesse este diálogo.– Tenho medo de pedir-lhe uma coisa…– E por que tens medo? – insistiu o velho, sempre a fitar maquinalmente a estrada.– Porque vai ralhar comigo.– Então queres pedir-me alguma tolice?…– Não, senhor!…– Então pede…– Promete não se zangar?…– Sim!– E quando souber que tenho um namorado? – disse abaixando os olhos Rosalina, porém agora mais terna do que medrosa.Ao ouvir as últimas palavras da filha, Maffei tirou vagarosamente o cachimbo da boca e voltou-se, cravando nela os olhos vivos e interrogadores.A rapariga estremeceu empalidecendo, sentia-se já arrependida do que houvera arriscado e com dificuldade conseguiu dizer vacilante:– Não, senhor! Não tenho!– Com que, tens um namorado?! – repisava entredentes o pescador, ruminando a frase.Rosalina conservava o olhar baixo e, perturbada, alisava com a unha do polegar da mão direita a costura do corpinho.– Com que, tens um namorado?!… repetia o velho.– Porém – disse trêmula e sem levantar os olhos Rosalina – ele me quer tanto! E eu estou tão afeita a vê-lo… – e abaixando mais a voz, quase a falar consigo, continuava – que era um bom moço, trabalhador, e que tudo era para bem, ele queria esposá-la, que…– Quem é? – interrompeu asperamente Maffei.– É… é… Miguel Rizio…Um raio não produziria o efeito desta revelação. A fisionomia do velho alterou-se apopleticamente; firmado nas plantas, levantou-se, como impelido pelas molas da cólera e descarregou com bruta excitação na mesa, o punho cerrado e nervoso. Foi um avermelhar

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Uma Lágrima de Mulher | Cap 06 e 07

6 Há dois anos estava Maffei em Rezina.Há dois anos cartas impregnadas de certo cheiro de prosperidade vinham alegrar a família do pescador e sobressaltar o ânimo do pobre Miguel. Contudo, a casinha branca continuava naquela ignorada e encantadora solidão; agora, porém, as oliveiras deixavam apodrecer o fruto nos galhos, o lagar dormia ocioso e as redes da pesca não viam água salgada desde muito tempo.Fazia uma noite deliciosa. Uma dessas noites sem lua, em que a frouxa claridade das estrelas povoa o campo de poesia e amor.O relógio de S. Tiago badalejava, pausada e religiosamente, o toque do crepúsculo, quando Miguel, com a sua rabeca debaixo do braço, seguia abstraído pela orla do caminho, que ia dar à casinha branca.Em breve atravessava o patamar de pedra da casa do pescador, e descansava vagarosamente sobre a mesa a rabeca e o chapéu de feltro de copa alta.Ângela e Rosalina correram ao encontro do recém-chegado.– Boa noite, Rosalina! Como passou, mãe Ângela?As duas responderam familiarmente a este cumprimento.– Senta-te aqui, Miguel – disse Rosalina, arrastando uma cadeira de pau, enquanto do fundo da casa, um cão, uivando amigavelmente, veio cheirar os pés e as mãos do artista. Fica visto por esta recepção que aquela visita não era novidade para nenhum dos três.Miguel sentou-se, sem cerimônia, ao lado de Rosalina; Castor, o cão, veio deitar-se-lhe aos pés, encostando-lhe humildemente a cabeça nas pernas.Depois de algum silêncio, entabulou-se entre os dois moços uma dessas conversações fúteis .e agradáveis, cujo segredo só possuem os namorados. Falavam baixo, descansados e desapercebidos de tudo; falavam nimiamente por se ouvir um ao outro, com o egoísmo dos amantes, mas sem afetação nem constrangimento.Qualquer coisa que dizia Miguel, tinha muita graça para Rosalina. O menor gracejo do artista fazia-a mostrar os dentes claros e a língua vermelha em uma das suas francas e sadias gargalhadas.– Tocas-me hoje o teu Sonho? – perguntou ela, em seguimento da conversa.– Tocarei, depois da leitura, mas trago-te uma música nova.– Feita agora?– Concluída hoje; já estava principiada há mais tempo.– A quem é dedicada?– Que pergunta! A quem poderia ser?– A mim! – disse Rosalina, feliz.– E sabe como se chama? – perguntou Miguel.– Como é?– Teu nome!– Rosalina?– Não! Teu nome!– Ah! – fez rindo a moça. – Já sei, o nome é: Teu nome!– Exatamente!– Ora! O que se chama, Teu nome, por bem dizer não tem nome.– Tolinha!… Queres que o mude?– Não!… – disse meigamente sorrindo Rosalina.– Então! Senhor Miguel! Não temos hoje leitura? – perguntou Ângela, colocando a mão aberta sobre os olhos para poder enxergar o interrogado.Este respondeu, levantando-se e indo tomar um livro de um armário de pau, pregado na parede; depois, assentou-se defronte da velha, que, junto à mesa, cosia ao clarão da luz do azeite.Rosalina foi reunir-se ao grupo. Reinava o mais absoluto silêncio.Miguel abriu com pachorra o livro, no lugar marcado por uma tira bordada, trabalho delicado de Rosalina, esfregou carinhosamente as palmas da mão nas folhas do livro, aberto de par em par; cruzou as pernas, enterrando os pés para baixo da cadeira, em que estava assentado; espevitou o pavio da candeia, e depois de fitar abstratamente a cabeça branca de Ângela, principiou, com a voz sonora e desembaraçada, a leitura de uns contos fantásticos, que faziam o enlevo da velha e de Rosalina.A isto sucedeu completa tranqüilidade.Com o interesse do romance, Ângela parara maquinalmente o trabalho e, firmando os cotovelos descarnados na madeira da mesa, ficava automaticamente a fitar, com o rosto apoiado nas mãos compridas e ossudas, o movimento regular dos lábios do leitor.Dominada, como estava, pela mágica influência do livro, ligava indistintamente não sei que relação entre a fisionomia expressiva de Miguel e o assunto da novela; parecia-lhe que aquilo eram palavras e pensamentos dele, ditos e pensados ali, naquele instante; às vezes sentia vontade de abraçá-lo, quando a passagem lhe agradava, e ao contrário, revoltava-se, interiormente, por amor das transcendentes maldades dos tiranos do romance.Choravam e riam silenciosamente as duas, conforme a situação. Tudo era interesse; até o próprio Castor parecia tomar parte na leitura, sofrendo resignado a vontade de ladrar contra as ruidosas lufadas do vento; ficava o pobre animal com a cabeça estendida e o olhar mole e sensual, a bater com a cauda de um para outro lado, com a uniforme oscilação de uma pêndula.No meio deste silêncio, a voz grave e compassada de Miguel ecoava monotonamente nas quatro paredes de betume cinzento.Terminada a leitura, conversavam os três sobre o enredo e o caráter dos personagens, que figuravam no romance, cujo desfecho Ângela com muito empenho profetizava.Em seguida, Rosalina foi buscar a rabeca e Miguel executou expressivamente várias músicas de sua imaginação, não se esquecendo da última – Teu nome, que muito arrebatou e comoveu aquela a quem foi oferecida.Com efeito desvanecia-se a rapariga com ser a inspiradora de tão belas concepções, e ficava enlevada, como a sonhar, bebendo pelo coração as melancólicas harmonias, que manavam do instrumento apaixonado.Assim fugiam as horas tranqüilas e esquecidas da visita, até que os sinos de S. Tiago tocavam o silêncio; então descontinuava-se o recreio: Miguel despedia-se, beijando a mão da velha e a fronte da moça, e, depois de tomar o chapéu e a rabeca, partia cabisbaixo.Ao sair o músico, fechavam logo a porta; a luz desaparecia da sala e as duas mulheres recolhiam-se para o mesmo quarto, onde rezavam e dormiam juntas; tudo isto era feito com cuidado e devagarinho, como se tivessem medo de acordar com o barulho a felicidade que se lhes agasalhara em casa. Nas noites em que Miguel se demorava ou não ia como de costume, sentiam-se as duas mal e impacientes, e Rosalina encostava-se, então, cantarolando, às ombreiras da porta, e derramava, de vez em quando, um olhar de tristeza pela brancura do caminho. Enfim, o rapaz era já como pessoa da família; era, pelo menos, uma necessidade para ambas.Aos domingos de primavera, o sol ao levantar-se às cinco horas já os via de pé e em caminho para a

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