Tarde de Clássicos

Uma Lágrima de Mulher 3 | Cap01, 02 e 03

01 Nas terras pequenas, onde as ambições e o egoísmo são relativos ao tamanho do lugar, são entretanto os corações extraordinariamente maiores que nas grandes capitais.Parece que essa víscera diminui na razão inversa do engrandecimento de uma cidade; quanto maior for a terra, mais ridículo e corruto é o coração de seus filhos. Ele é como o barômetro da civilização, que o sufoca e amesquinha.Cada vez acreditamos mais que a inocência anda de par com a ignorância, como a lealdade e a franqueza com a inexperiência, como o progresso com a desconfiança, como a glória com o egoísmo, como a ambição com a desvergonha e finalmente como a riqueza com a miséria.Os milhões e as misérias degradantes são o patrimônio das cortes, como a mediocridade de haveres e a ausência de absoluta miséria são o das pequenas cidades – acumulam-se de um lado os bens para faltar do outro – acumulam-se mais, mais ainda, exageradamente mais, e mina pelo outro lado a miséria degradante, inconcebível, sem nome.Esse desequilíbrio da fortuna produz o equilíbrio da balança social, o equilíbrio das classes. Do contraste das circunstâncias nasce a indústria e o comércio; estes são o progresso e a civilização.E o que fazem o progresso e a civilização ao contemplar a paz dos campos, a felicidade serena do lar, a fortuna dos obscuros e ignorados filhos da província?Riem-se grosseira e estupidamente.A ingênua hospitalidade da província, a espontaneidade no obsequiar, a facilidade de amar, o desinteresse no servir, o desejo de agradar, o compadecer dos infelizes, o consolar os desesperados, a obrigação de proteger os fracos, o interesse pelo semelhante, e mil outras virtudes dos pequenos lugares, passam ridiculizadas senão desconhecidas nas grandes capitais, onde o dinheiro forma um centro de gravidade, em torno do qual, como formidável mundo planetário, gravitam, sujeitos e dominados pela força centrípeta, a moda, a aristocracia, a elegância, a vaidade, o orgulho, o egoísmo, a ambição, o desamor, a indiferença, a baixeza, o roubo, a mentira, a torpeza, a desonra e mil outros vícios brilhantes, cujas centelhas são todas as vergonhas, todas as misérias, todas as corrupções sociais!A hipocrisia é moeda corrente nos grandes meios e há como um comércio de ódios surdos entre os correligionários mais íntimos e comunicados desse círculo, dourado na superfície e podre no fundo.Tudo ofusca! Tudo luz! Porém nada conforta porque nada tem valor sincero e real.Na província os sentimentos são mais nus e verdadeiros e as almas mais humanas e firmes. Aqui o coração é coração, o bom é bom e o mau é mau; aqui as mães são verdadeiramente mães, ali muito raras das vezes o são; aqui a mulher quer ser mãe para ser feliz, ali não quer ser mãe para não afear; aqui o amor e o casamento são coisas puras, fáceis e naturais, ali são jogos de especulação e de interesse individual. Nas terras pequenas o casamento é, em geral, uma conseqüência do amor; nas grandes, quando ele no casamento exista, o que rarissimamente sucede, é uma conseqüência do casamento, isto é, da convivência e do hábito.Daí os imensos crimes e as torpezas mesquinhas; daí os filhos raquíticos e desestimados, as mães doentias, céticas, aborrecidas e sem amor.Na província, enfim, cada um tem o seu coração, por ele vive epratica, por ele ama e só ele delibera; na capital há somente um coração para todos, podemos dizer um coração oficial, uma víscera da nação, um aparelho mecânico e econômico – tem a mesma pulsação e o mesmo calor para todos; é quase que um coração artificial; é mais um objeto de luxo, que um órgão necessário; é uma tetéia dourada, é um boneco de papelão, é um trapo, é lama!Pode haver um bom povo numa grande capital, convimos, mas urge compreender que um bom povo não diz o mesmo que uma boa gente. Assim como uma atmosfera, aliás boa e salubre, se compõe de moléculas boas e más, cuja combinação produz magníficos resultados; assim também o povo de uma grande capital, como o de Paris, por exemplo, ou de Madri, pode ser bom no todo e ruim em partes.Junto, unido, fundido em massa, ligado compactamente pelo entusiasmo, pelos brios políticos será bom, porque é brilhante e é grandioso, porém como as montanhas, só produz efeito visto de longe, donde com um olhar se abranja o todo e não as partes. Será belo, através dos prismas encantados da história e dos séculos, será. transparente e azul, depois de uma refração, como nos aparece o éter através da luz do sol e dos gases atmosféricos, porém de perto é grosseiro e informe como a montanha, pedras bruscas e ruins, vegetações enfezadas, barrancos perigosos, onde se escondem répteis malvados e traiçoeiros.Assim é o povo de uma capital civilizada, pode ser bom no conjunto, mas em geral os homens que o formam são entre si maus e viciosos. 02 Fria e fisiologicamente esmerilhando a verdadeira causa, não é espantar, como parece à primeira vista, que a estranha família de Lípari se houvesse tão boa, tão patriarcalmente virtuosa, tão desafetadamente ingênua, tão infantilmente generosa e protetora, para com um pobre moço que se apresentava como mestre, sem proteção, sem dinheiro, sem atestados de colégio, sem outros dotes, que o recomendassem além dos morais e intelectuais.É que nos lugares pequenos abrem-se os corações antes de se abrirem os olhos; preferem o bom caráter e os bons costumes à grande sabedoria e à brilhante nomeada. Ninguém se diz – mostra-se; ninguém pergunta – vê.E se procurássemos bem a causa de tudo isto, haveríamos de descobrir que, em vez do ar polvilhado das ruas estreitas das cortes, dos acepipes caprichosos dos hotéis, dos vestidos apertadíssimos de baile, das encanecedoras vigílias, das festas, do abuso dos perfumes, do uso dos licores excitantes, dos sentimentos contrariados, das dores disfarçadas pelo riso e das lágrimas fingidas; em vez de tudo isso respiram os da burguesa província o ar livre dos campos, comem os frugais legumes de suas hortas, vestem-se à larga, dormem cedo, encantam-se com os perfumes das flores

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Uma Lágrima de Mulher 2 | Cap13

13 Nesse mesmo dia, Miguel, compondo boa sombra e bom gesto, se desfazia em razões por descontinuar em casa da família L…– Já que está tão aferrado à sua resolução, parta, meu amigo – dizia o protetor de Miguel, entregando ao protegido o saldo dos seus salários – mas não se esqueça que aqui fica uma família que tanto o aprecia, como estima. Se algum dia suceder que volte, venha de novo ter conosco; prezamos contar para meus filhos com o mesmo mestre e para mim com o mesmo filho. Venha! O senhor será sempre recebido de braços abertos nesta casa; e pode, tanto disto, como da afeição sincera que nos inspirou, levar certa a vitória, mais ganhada por direito do que por conquista!E levantando mais a voz, em cuja firmeza se percebia a experiência e a convicção, disse como um profeta:– O senhor é um homem de bem!– Obrigado – balbuciou Miguel comovido, e beijou-lhe a mão. As crianças escutavam boquiabertas.– Mas o meu mestre vai para ficar? – perguntou Beppo.– Espero que não, meu amiguinho; um dever de amigo constrange- me a partir para Nápoles, mas, logo que me seja possível voltar, continuaremos os nossos estudos e os nossos passeios; quanto à boa amizade – ah! essa, garanto, em desfavor da ausência e do tempo, continuar na mesma altura.Assim dizendo, Miguel abraçava Beppo e os irmãos.Os meninos, entretanto, vestiam tal seriedade, que mais pareciam zangados que pesarosos. Convém notar que em Miguel não viam eles a carranca do mestre-escola, mas o olhar inteligente e amigo do companheiro de folguedos; metera-lhes, é verdade, o bom moço, a carta do ABC nas unhas e na memória, mas em compensação ensinara-lhes a tirar funda, a lançar o pião, a nadar e vencer barrancos e finalmente instruíra-os na grande ciência de fazer armadilhas e laçar passarinhos e lagartos. Ora, quem ensina destas artes às crianças é fatalmente adorado por elas, e, por conseguinte, mesmo barateando a simpatia natural de Miguel, os filhos do senhor L… tinham jus a estremecer o mestre, para, assim de coração tranqüilo, o verem partir tão inesperadamente.A amizade das crianças, como toda afeição dos fracos, é egoísta; os pequenos constituíam para si um direito absoluto sobre o amigo. Tiravam- lho? Tanto pior! Por quê? Não queriam saber de razões; fossem quais fossem as causas, o efeito era evidentemente desfavorável e mau. E tanto bastava para estarem enfiados e furiosos.Jeovanito, o mais moço dos três, vendo que nada conseguia pelo suposto direito, achegou-se do mestre e disse-lhe, ameigando-lhe os dedos com a sua mãozinha gorda e rosada:– Fica, meu mestrinho!…Dito isto, ficou a olhá-lo suplicante, fazendo dos lábios, que talvez ainda cheirassem a leite, um biquinho de enfado e ternura.Miguel respondeu negativamente com a cabeça enquanto o beijava. Desesperou-se o pequeno, e, conhecendo a nulidade de seus esforços,arremessou com toda a delicada força de seu bracinho uma pancada no ombro de Miguel, acompanhando-a dos epítetos mais engraçados e injuriosos que pode dizer uma criança.Por outro lado, a mãe dos meninos também apresentava, com muita brandura de gestos e delicadeza de palavras, as suas sinceras oposições; e delas, vendo a virtuosa senhora o nenhum êxito, volvia a aconselhar o amigo de seus filhos, com tais carinhos e meiguices de mãe, como se aos próprios filhos o fizesse.A mãe em tudo revela a maternidade, seja ela a mãe de Cristo ou a fêmea de um leão; entre a brandura celestial da santa e a ferocidade mundana da leoa está esse sentimento sublime, esse amor incomparável que tudo pode, tudo vence, tudo desbarata para salvar o filho. Penda para uma das extremidades, penda para a outra, seja divina ou seja bestial, há de ser mãe – ora comove pedras com as lágrimas do anjo, ora vence gigantes com as garras da fera; ora pede de joelhos, ora ameaça com as unhas; ora suplicante, ora ameaçadora, mas sempre sublime, sempre mãe!Miguel despediu-se da mãe dos seus discípulos sumamente comovido; ela fê-lo chorando e chorando dependurou-lhe do pescoço uma medalha de cobre com a imagem da Madona.– É para que o proteja e ajude – disse a boa senhora abençoando-o, e, distribuindo depois pelos filhos objetos de uso, como pentes, escovas, lenços e gravatas, disse-lhes:– Vamos, meus filhos, dêem esses mimos ao seu mestre e peçam a Deus que o abençoe e o acompanhe.As crianças, quase em coro, repetiram automaticamente as palavras da mãe.O senhor L… ofereceu-se ainda uma vez ao viajante para escrever a alguns amigos de sua confiança, recomendando-o; ao que se opôs reconhecido Miguel, pretextando parecer-lhe isso nimiamente desnecessário. – Então, repito-lho, meu amigo, vá e não se esqueça de nós.– Seria preciso ser muito ingrato – disse Miguel, abraçando-o pela última vez, o que foi fazendo por todos até sair, depois de beijar repetidas vezes os discípulos, que se conservaram imperturbáveis e sérios.Quando Miguel desapareceu, os pequenos desataram a chorar ruidosamente.Decorreu para a família L… um dia comprido e triste.

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Uma Lágrima de Mulher | Cap 11 e 12

11 Miguel voltou incontinenti.A viagem foi demorada em virtude do caminhar incômodo da carroça. Mal chegado à cocheira, montou, sem tomar fôlego, um cavalo que lhe pareceu melhor e galopou para o lugar da entrevista.Daí a pouco atravessava de vertiginosa carreira todos aqueles barrancos, impregnados para ele de saudade e tristeza, de amor e de fadigas.Parecia mais galopar na impaciência de chegar do que no seu cavalo.A solidão, o marulhar na costa, a hora adiantada da noite, erguiam-se como enorme fantasma de neblina e espuma, que lhe vinha avivar a cólera de Maffei; o luzir vermelho e colérico dos olhos da fera, ainda o sentia ele dentro de si, como duas brasas a lhe queimarem os ossos do crânio. Esses olhos, que Miguel viu pela última vez antes de cair no precipício, procurava desde então esconder com o manto claro das suas idéias; entanto, ele os sentia a queimá-las, a esburacá-las e, depois de encardi-las, reaparecerem ameaçadores e vivos, a espreitar de dentro os seus movimentos, palavras e mais íntimas intenções, como se fosse o próprio olhar da consciência, mas de uma consciência ébria.Sim, porque a consciência também se embriaga, e nesse estado diz coisas sem nexo e às vezes obscenas.Ela, como toda a mulher quando se embriaga, fica nojenta – arregaça as mangas e as saias, fuma, cospe-se toda, ri-se como os marujos e bebe como os soldados; perde, enfim, a vergonha e o pudor.As grandes crises podem divinizar ou prostituir uma consciência do mesmo feitio que um grande amor pode divinizar ou prostituir uma mulher. A casta, a pudica, a terna consciência do artista dava nessa ocasião gargalhadas de barregã; contudo, lá ia ele a galopar com ela na garupa.Levava consigo a bêbeda e pelo caminho abraçavam-se e beijavam-se como dois amantes doidos.De fato é loucura o amor sem conforto que passa de cinco anos; o cérebro e o coração também concebem e os fetos às vezes saem alucinados, extravagantes e incoerentes.A idéia fixa, que acompanhava Miguel há quatro anos, era um feto desse gênero, fecundado pelo amor e pela desgraça e endoidecido pelos próprios pais; esse feto crescera, crescera ainda mais e quando nasceu mamou nas tetas de uma fera.– Uma fera doida, eis a idéia fixa de Miguel nessa noite; presa, era horrível; solta, deveria ser fatal.Nesse estado chegou ele à cabana do desconhecido; apeou-se e empurrou com um murro a porta.Sombra da Noite dormia tranquilamente sobre umas palhas no chão; a claridade amortecida das estrelas, que se introduzia pela greta da porta, iluminava frouxamente o interior miserável da casinha.Miguel arquejava; dir-se-ia o ressonar da sua consciência ébria; à vista, porém da tranqüilidade rústica com que dormia o pescador, fugiram envergonhadas as suas suspeitas e foi cheio de confiança que se chegou para o acordar.Sombra da Noite espichou uma perna, abriu duas vezes a boca e levantou-se finalmente, fazendo o sinal-da-cruz.– Espere, homem! – disse ele a Miguel – não vá dar com as pernas por aí!E recolheu-se ao fundo da casa, donde voltou pouco depois com um rolo de cera de abelha torcido e encerado.– Sente-se por aí! Olhe, tenho só este madeiro; não faz lá muito bom assento, mas serve.E empurrou para Miguel um tronco de nogueira, única mobília dacasa.Miguel sentou-se, ardendo de impaciência.O homem foi ao outro quarto, bebeu água de um púcaro de barro,acendeu o cachimbo e fechou a porta com uma tranca de madeira pesada; depois, encostou-se à parede, com as pernas cruzadas e o indicador da mão esquerda engatilhado no cachimbo, e disse entre uma baforada de fumo e um bocejo:– Agora vamos ao que serve! 12 Às quatro horas da manhã; já no Oriente passeava a aurora a sua alegria cor-de-rosa, contrastando com a terra toda tranqüilidade e sonolência; somente da choupana de Sombra da Noite uma claridade avermelhada empalidecia ao clarão matutino do dia.Parece que a natureza ao acordar vai apagando com as brisas da aurora as luzes mesquinhas das alcovas do homem. Quão ridícula e miserável é a luz mortiça de uma vela em presença da luz vivificante do sol– dir-se-ia o espírito de um homem comparado ao espírito de Deus.Também devem ser assim mesquinhas e pálidas as nossas almas em presença do incriado no tremendo dia do Juízo Final!A portinha da choupana rangeu, depois da detonação que fez a tranca pesada de madeira ao cair na terra do chão e deu passagem a Miguel, seguido de Sombra da Noite. O moço vinha transformado pela insônia e fadiga; o outro ajudou-o a montar o animal, que tosava fora os detritos da ladeira, dizendo-lhe secamente:– Até amanhã…– Então posso contar com o seu auxílio? – volveu Miguel, firmado nos estribos e segurando com uma das mãos o chapéu, que o vento se esforçava, por arrancar.– Para a vida e para morte! – respondeu o pescador, recebendo dinheiro da mão que Miguel lhe estendia.O cavalo disparou e sumiu-se com o cavaleiro na estrada. Pouco e pouco foi-se perdendo o som metálico da ferradura pisando o chão. Fechou-se de novo a porta da choupana sobre Sombra da Noite, e desapareceu a luzinha vermelha.O sol acabava de levantar-se no horizonte, trêmulo.

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Uma Lágrima de Mulher | Cap08, 09 e 10

08 – A caminho, meu amigo, disse Miguel a Castor. E puseram-se a andar com vontade pela estrada que ia dar ao povoado.Castor ia na frente, sacudindo satisfeito a cauda, pelo compasso do andar cadenciado e ligeiro do cão quando leva destino; o artista atrás, triste, vergado, coberto de lama, sangrento, tiritando, mais se arrastava do que andava. Apesar do frio da madrugada que para o nascente alvorecia o horizonte, Miguel tinha a tomar-lhe a cabeça febre abrasadora; seguia com o peso aterrador de quem acabava de assistir nesse instante à transformação de sua ventura em um montão de ruínas. Que poderia esperar mais, além das neves do isolamento? Rosalina desaparecera, isto é, fecharam-se todas as portas, janelas e postigos de sua alma por onde podia entrar a luz. E que seria das flores dessa pobre estufa, dessas flores tão cuidadosamente tratadas por ele entre os abrolhos de uma vida de necessidades e decepções, sem um único raio do sol que até ali as sustentara? Que seria delas com a ausência absoluta de Rosalina?O amor é para a alegria, a esperança, a honra e a glória o que a luz é para as flores; em outras palavras o amor é o matiz, o perfume, o frescor e a vida de nossos sentimentos.As flores não podem vingar nas trevas.Assim pensava Miguel quando chegou com o companheiro a casa.O sol tinha se erguido de todo no levante; fazia um tempo magnífico. O moço empurrou a porta e Castor precipitou-se no interior do quarto, farejando os pobres trastes e o chão, em seguida, mordendosatisfeito a cauda e as patas, pôs-se a ladrar para a rua.Desde esse dia viveram os dois amigos em íntima e completa harmonia – nunca se separavam, comiam juntos e dormiam perto um do outro.Três meses depois do incêndio Miguel teve noticia de uma família que precisava de um professor de música para quatro crianças; apresentou- se e foi aceito.De tal momento correu-lhe a vida mais fácil. Em pouco tempo, Miguel, cujos modos singelos e honestos atraíram incontinenti sobre ele a cega confiança e simpatia dos seus protetores passou de mestre de música a servir de preceptor, acompanhava por gosto os pequenos nos seus passeios e afinal já lhes tinha amizade.O bom rapaz desvelava-se em dar aos discípulos mais instrução do que lhe competia e até, digamos, mais do que podia – estudava durante a noite para instruí-los pela manhã, com tão feliz êxito que às vezes gravava- lhe inalteravelmente na memória ainda fresca preceitos e fórmulas de literatura e belas-artes, dos quais se esquecia o próprio mestre, que os não decorava. E por este sistema instruía com cabedais alheios; era, por bem dizer, o instrumento dos bons livros, mas o fato é que os pequenos se desenvolviam e tanto lhe bastava.Os rapazes adoravam-no.Não há como as crianças para tomar amizade à gente, e com esta cresce em geral a dos pais; os dos discípulos de Miguel estavam encantados com a boa aquisição que haviam feito. Um dia chamaram em particular o jovem preceptor, e, depois de lhe manifestarem o quanto estavam penhorados pelos seus bons esforços e pelo seu bom caráter, o quanto desejavam que Miguel continuasse em companhia deles, declararam que haviam deliberado aumentar-lhe o ordenado e fazê-lo morar em sua companhia e sob as suas vistas e cuidados – que Miguel era só e adoentado; que era preciso ter mais cuidado com a saúde e terminaram franqueando paternalmente ao professor um quarto cômodo e decente.No dia imediato Miguel e Castor estabeleciam-se em casa da família L…Tinha por conseguinte o artista todos os elementos de uma felicidaderelativa – teto, cuidados e estima, agora possuía por bem dizer uma família; entanto, tristeza contínua e carregada pesava-lhe deveras sobre o coração como a garra negra de um abutre. Embalde esforçava-se por esquecer de todo o pretérito e viver só do presente; embalde tentava plantar novas flores no terreno ressequido de seus afetos, que logo não rebentasse aí, sangrentas e truncadas, as raízes de sua antiga fortuna, porventura mais persistente e volumosa depois que se convertera em infortúnio.E neste definhar amargurado via ele cair um após outro, no passado, os seus dias pálidos e saudosos, sem risos nem esperanças.De todos procurava informar-se a respeito de Rosalina, e ninguém o esclarecia; da ilha haviam todos perdido de vista o pescador Maffei. Entre o homem rude e o homem rico abrira o ouro largo espaço. De um lado não se conheciam os que estavam do outro. 09 E no excogitar doloroso da saudade decorreram dois anos de desesperança, sem que fosse dado ao artista ter notícia da sua amada.Já não parecia o mesmo – tomara-se trabalhador e grave. A vigília e o estudo avivaram-lhe na fisionomia os clarões da inteligência, com a mesma intensidade com que as sombras de constante tristeza lhe anuviaram no olhar a mocidade e o riso.Bela e pensadora cabeça, quem te burilou tão sublime: a arte divina do homem ou a mão humana de Deus?Muitas vezes o viam passar sombrio e automático, seguido dos seus discípulos e do cão, em tais momentos pendia-lhe para a terra a cabeça, como quem procura um canto onde descanse o último sono. E as pobres criancinhas, coitadas! Olhavam para o mestre com os pequeninos corações estremecidos; as louras sensitivas choravam porque o viam chorar.Num destes passeios chegaram às ruínas da casinha branca; massa informe de pedras e barro denunciavam apenas o lugar onde crescera e brincara Rosalina. Era tudo enegrecido pelo fogo e silencioso pelo abandono; somente além, para as bandas do mar, por entre o sussurrar das oliveiras, um pescador velho se lembrara de construir a sua choupana.Derramava-se a hora do crepúsculo e da tristeza; os últimos clarões do dia abraçavam as primeiras sombras da noite – carícia contraditória da luz e da sombra. Nada enternece tanto como, depois de algum tempo, voltar ao berço de nossa primeira felicidade; também não há decepção comparável à que experimentamos ao topar arrasado esse ninho de recordações e saudades. – Procurar um abrigo e

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Uma Lágrima de Mulher 2 | Cap05, 06 e 07

05 O baile continuava crepitante a devorar saúde, dinheiro, e reputação, como um incêndio em que já ninguém se entende e cada um só cuida de si; com a diferença, porém, que no sinistro do fogo procura-se um meio de salvar e no do baile procurava-se um meio de perder.O álcool, combustível perigoso, aumentava progressivamente a densidade do incêndio; as garrafas vazias tinham já maioria sobre as cheias– sintoma infalível de desordem.Assustador era o aspecto do salão de dança – sobreerguia-se em espirais alcoolizadas e insalubres um vozear confuso e bestial, que se podia chamar o fumo da incineração das consciências.Entretanto, na outra sala, o jogo, como uma pústula, ia apodrecendo surdamente o que alcançava. A razão não tinha para onde fugir – de um lado o fogo e do outro a putrefação.Rosalina, bela, mas já dessa beleza satânica das bacanais – pendente a cabeça, requebrado o olhar e o colo nu, valsava no salão principal com um rapaz de bigodes pretos, reclinada volutuosamente sobre ele, entregues ambos ao desamparo, feliz e inebriante do prazer e da fadiga. Ele, arquejando, segredava-lhe umas coisas grosseiras e apaixonadas, e ela, ela sorria com indulgente gosto ao som venenoso das palavras que saíam truncadas e ardentes dos lábios do mancebo.Depois de um trêmulo diálogo, imperceptível para os outros, em que deliberavam mais os olhos que as palavras, ela abaixou com prometedora ternura as pestanas, como respondendo à fixidez interrogadora dos olhos abrasados do par, e ele, com reconhecido sorriso, recolheu esse abaixar de pálpebras, que queria dizer – sim.No mesmo instante separaram-se, e Rosalina, lançando sobre o moço um olhar significativo, desapareceu do salão, sem ser percebida.Atravessou sozinha e ligeira duas salas, passou pela varanda, desceu a escada que conduzia ao primeiro andar, e, procurando abafar o som dos passos, apalpando cautelosamente as sombras dos corredores, chegou a uma porta, abriu-a e entrou.Era a porta dos seus aposentos particulares, silencioso e perfumado ninho, onde o ruído do incêndio de cima chegava trêmulo e desfeito, como o murmúrio de uma tempestade ao longe.Rosalina ao entrar correu de todo o farto cortinado de damasco e atirou-se extenuada sobre um divã. Sentia-se preguiçosamente fraca e terna, tinha uns desejos vagos e incompletos, uma moleza volutuosa e agradável que a obrigava a fechar involuntariamente as pálpebras.Pequena lamparina de ágata espalhava nos aposentos meia claridade macia, doce, morna e sonolenta, como o olhar oriental de um elefante.Envolvida nesse nada cor-de-rosa, a moça meditava.– E em quê!…Ó caprichos da imaginação! – Em Miguel. Desde que o esquecera era a primeira vez que o vulto sombrio do seu amado primitivo lhe acudia à memória; dantes acudia-lhe muitas vezes, porém ao coração. Sem saber por quê, Rosalina com tal lembrança começou a sentir o princípio de uma pontinha de remorso – tímido e flexível como o espinho ainda verde, mas já agudo. Estava em tempo de quebrar facilmente, porém já doía.Quando de muda para Nápoles, Rosalina, como única resposta que obteve do pai a respeito de Miguel, ouviu estas duas sílabas: – Morreu.Naquele momento, esta palavra caiu-lhe inteiriça sobre o coração como uma pedra sobre um túmulo, e, todavia, a idéia de viver em Nápoles com opulência lhe sopeara as lágrimas que porventura queriam rebentar; mas pouco tempo depois, as festas, o luxo, o amor dos homens, a inveja das mulheres e o ciúme e desespero dos desprezados, matizaram-lhe, como uma primavera cheia de luz e vida, por tal forma o coração, que as flores acabaram por esconder o grosseiro túmulo que ali jazia. E desde então Miguel fora totalmente esquecido.Agora, mistérios do coração! Por entre as flores e por entre os risos lobrigava ela o fúnebre alvejar da pedra sepulcral; e o artista alevantava-se medonho da sepultura, como um espetro sombrio e ameaçador, a fixá-la das sombras da eternidade.Esta visão preocupou ainda mais a bela cismadora que, suspirando, ergueu-se, passou as costas das mãos pelos olhos, e depois acendeu um lustre, como querendo afugentar com a luz o fantasma.De repente alguma coisa lhe prendeu a atenção. – Era um som longínquo e profundo, que vinha do jardim pelo lado oposto às salas do baile; Rosalina reclinou vagarosamente a cabeça para o lado donde lhe parecia vir aquele som, gemido ou voz, suspiro ou música, e, caindo de novo no divã, quedou-se embevecida a escutá-lo.O som lembrava ora o mugido de uma criancinha, ora o ciciar da brisa; voz da natureza ou suspirar de homem, chegava-lhe ao coração essa música como coisa estranha, impressiva e sobrenatural.Havia nesse murmurar um não-sei-quê de humano e um não sei quê de celeste; mal se diria se eram notas gemebundas e plangentes que vinham do céu ou se uma harmonia de lágrimas, caindo gota a gota numa taça de cristal; enfim, participava tanto do céu como da terra – poder-se-ia dizer que era o roçar das asas dos anjos pelo coração do homem.Era uma rabeca que falava a linguagem da inspiração – idioma divino só compreendido pelas almas bem formadas.Rosalina bem conhecia o metal daquela voz; conhecia a rabeca, o arco e conhecia a música, porém a sua alma embalde se esforçava por compreendê-la ainda; produzia-lhe já o efeito de uma língua estranha digamos de uma língua morta.E, contudo, a rabeca soluçava a última composição que Miguel lhe dedicara na casinha branca.Apossou-se então de Rosalina um entorpecimento pesado e sombrio, um quase sonambulismo; e, nesse estado, que se pode chamar o crepúsculo entre a vida real e o sonho, sentia e ouvia, alucinada, aqueles gemidos indecisos e plangentes, que parecia saírem das profundezas da eternidade para vir condená-la no meio da fortuna e do vício.De quem poderia ser aquele gemer? De homem certamente que não; só uma alma penada saberia gemer assim.Então assistia-lhe vontade de chorar.– Chorar? Por quê?A consciência negava-lhe a resposta, como os olhos negavam-lhe as lágrimas; e o pranto não passava do coração. Infeliz daquele a quem não é dado chorar; só o pranto afoga a dor que a vontade não vence destruir.Lutando com tais opressões, Rosalina ergueu-se no intuito de

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Rolar para cima