Uma Lágrima de Mulher 3 | Cap01, 02 e 03
01 Nas terras pequenas, onde as ambições e o egoísmo são relativos ao tamanho do lugar, são entretanto os corações extraordinariamente maiores que nas grandes capitais.Parece que essa víscera diminui na razão inversa do engrandecimento de uma cidade; quanto maior for a terra, mais ridículo e corruto é o coração de seus filhos. Ele é como o barômetro da civilização, que o sufoca e amesquinha.Cada vez acreditamos mais que a inocência anda de par com a ignorância, como a lealdade e a franqueza com a inexperiência, como o progresso com a desconfiança, como a glória com o egoísmo, como a ambição com a desvergonha e finalmente como a riqueza com a miséria.Os milhões e as misérias degradantes são o patrimônio das cortes, como a mediocridade de haveres e a ausência de absoluta miséria são o das pequenas cidades – acumulam-se de um lado os bens para faltar do outro – acumulam-se mais, mais ainda, exageradamente mais, e mina pelo outro lado a miséria degradante, inconcebível, sem nome.Esse desequilíbrio da fortuna produz o equilíbrio da balança social, o equilíbrio das classes. Do contraste das circunstâncias nasce a indústria e o comércio; estes são o progresso e a civilização.E o que fazem o progresso e a civilização ao contemplar a paz dos campos, a felicidade serena do lar, a fortuna dos obscuros e ignorados filhos da província?Riem-se grosseira e estupidamente.A ingênua hospitalidade da província, a espontaneidade no obsequiar, a facilidade de amar, o desinteresse no servir, o desejo de agradar, o compadecer dos infelizes, o consolar os desesperados, a obrigação de proteger os fracos, o interesse pelo semelhante, e mil outras virtudes dos pequenos lugares, passam ridiculizadas senão desconhecidas nas grandes capitais, onde o dinheiro forma um centro de gravidade, em torno do qual, como formidável mundo planetário, gravitam, sujeitos e dominados pela força centrípeta, a moda, a aristocracia, a elegância, a vaidade, o orgulho, o egoísmo, a ambição, o desamor, a indiferença, a baixeza, o roubo, a mentira, a torpeza, a desonra e mil outros vícios brilhantes, cujas centelhas são todas as vergonhas, todas as misérias, todas as corrupções sociais!A hipocrisia é moeda corrente nos grandes meios e há como um comércio de ódios surdos entre os correligionários mais íntimos e comunicados desse círculo, dourado na superfície e podre no fundo.Tudo ofusca! Tudo luz! Porém nada conforta porque nada tem valor sincero e real.Na província os sentimentos são mais nus e verdadeiros e as almas mais humanas e firmes. Aqui o coração é coração, o bom é bom e o mau é mau; aqui as mães são verdadeiramente mães, ali muito raras das vezes o são; aqui a mulher quer ser mãe para ser feliz, ali não quer ser mãe para não afear; aqui o amor e o casamento são coisas puras, fáceis e naturais, ali são jogos de especulação e de interesse individual. Nas terras pequenas o casamento é, em geral, uma conseqüência do amor; nas grandes, quando ele no casamento exista, o que rarissimamente sucede, é uma conseqüência do casamento, isto é, da convivência e do hábito.Daí os imensos crimes e as torpezas mesquinhas; daí os filhos raquíticos e desestimados, as mães doentias, céticas, aborrecidas e sem amor.Na província, enfim, cada um tem o seu coração, por ele vive epratica, por ele ama e só ele delibera; na capital há somente um coração para todos, podemos dizer um coração oficial, uma víscera da nação, um aparelho mecânico e econômico – tem a mesma pulsação e o mesmo calor para todos; é quase que um coração artificial; é mais um objeto de luxo, que um órgão necessário; é uma tetéia dourada, é um boneco de papelão, é um trapo, é lama!Pode haver um bom povo numa grande capital, convimos, mas urge compreender que um bom povo não diz o mesmo que uma boa gente. Assim como uma atmosfera, aliás boa e salubre, se compõe de moléculas boas e más, cuja combinação produz magníficos resultados; assim também o povo de uma grande capital, como o de Paris, por exemplo, ou de Madri, pode ser bom no todo e ruim em partes.Junto, unido, fundido em massa, ligado compactamente pelo entusiasmo, pelos brios políticos será bom, porque é brilhante e é grandioso, porém como as montanhas, só produz efeito visto de longe, donde com um olhar se abranja o todo e não as partes. Será belo, através dos prismas encantados da história e dos séculos, será. transparente e azul, depois de uma refração, como nos aparece o éter através da luz do sol e dos gases atmosféricos, porém de perto é grosseiro e informe como a montanha, pedras bruscas e ruins, vegetações enfezadas, barrancos perigosos, onde se escondem répteis malvados e traiçoeiros.Assim é o povo de uma capital civilizada, pode ser bom no conjunto, mas em geral os homens que o formam são entre si maus e viciosos. 02 Fria e fisiologicamente esmerilhando a verdadeira causa, não é espantar, como parece à primeira vista, que a estranha família de Lípari se houvesse tão boa, tão patriarcalmente virtuosa, tão desafetadamente ingênua, tão infantilmente generosa e protetora, para com um pobre moço que se apresentava como mestre, sem proteção, sem dinheiro, sem atestados de colégio, sem outros dotes, que o recomendassem além dos morais e intelectuais.É que nos lugares pequenos abrem-se os corações antes de se abrirem os olhos; preferem o bom caráter e os bons costumes à grande sabedoria e à brilhante nomeada. Ninguém se diz – mostra-se; ninguém pergunta – vê.E se procurássemos bem a causa de tudo isto, haveríamos de descobrir que, em vez do ar polvilhado das ruas estreitas das cortes, dos acepipes caprichosos dos hotéis, dos vestidos apertadíssimos de baile, das encanecedoras vigílias, das festas, do abuso dos perfumes, do uso dos licores excitantes, dos sentimentos contrariados, das dores disfarçadas pelo riso e das lágrimas fingidas; em vez de tudo isso respiram os da burguesa província o ar livre dos campos, comem os frugais legumes de suas hortas, vestem-se à larga, dormem cedo, encantam-se com os perfumes das flores
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