outubro 2023

Tuhpanger | Episódio 04

Subiu a escada até o alto, vestia seu maio e a sua touca bem colocada para prender seus cabelos. Quando chegou à ponta da tabua pulou três vezes e na quarta vez foi o momento em que se jogou com tudo na água, girou no ar — nesse momento os seus colegas que estavam assistindo comemoraram aquele movimento com gritos de felicidade. — Quando caiu na água foi até o fundo e retornou a superfície, nadou rapidamente até o outro lado da piscina. Muito antes de ter se tornando uma guerreira espiritual, Katarina já havia se tornando uma eximia nadadora. Seu treinador a ajudou a sair da piscina e em seguida lhe entregou uma toalha limpa. — Muito bem, Katarina, mas se você quiser chegar as olimpíadas vai ter que melhorar mais um pouco. Vamos ter que aumentar seu treinamento aí. — disse o treinador. — Aumentar? — Sim, aumentar. Você vai ter que começar a vir de tarde também, depois das suas aulas e treinar até o anoitecer. — Treinar até o anoitecer. — Vai me dizer que estará ocupada? Sim, ela estaria ocupada treinando seus golpes de luta na aldeia perdida e também lutando contra os monstros enviados por Abaçay. Quando Katarina começou ser uma Tuhpanger não pensou que teria que deixar sua carreira de nadadora de lado, porém ela não poderia desistir daquele sonho tão facilmente assim. Estava tão perto de conseguir o que tentou sonhou. Daria um jeito de conciliar a sua vida de atleta, sua vida de estudante e os seus momentos de heroína quando estivesse batalhando contra o exército de Abaçay. — Então, o que você tem para me dizer? — questionou o treinador visivelmente sem paciência. — Eu vou conseguir, pode confiar em mim. — respondeu a garota loira cheia de confiança por fora e cheia de incertezas por dentro. … Cuca estava analisando as estátuas da caverna, escolheria o próximo monstro que atacaria e tentaria derrotar os guerreiros espirituais em breve. Tinham muitas ótimas opções, mas teria que ser certeira para que os Tuhpanger caíssem de vez. A feiticeira sabia que não poderia decepcionar o seu mestre, pois corria o risco de ser apagada da existência se a derrota anterior se repetisse. Lentamente se aproximou da estátua que lembrava um homem meio peixe. — Você vai ser o próximo! — apontou seu cajado para a estátua e os raios envolveram a pedra em forma humanoide, aos poucos a estátua foi dando lugar a um monstro que ao mesmo tempo em que lembrava um peixe trazia vários detalhes humanos. — Estou vivo! — gritou a monstruosidade. — Sim, você está vivo. Ipupiara, você foi trazido ao mundo novamente para servir ao nosso mestre Abaçay mais uma vez. — Abaçay está vivo? — perguntou Ipupiara surpreso. — Sim, precisamos que você derrote os protetores de Pindorama! O ser meio peixe e meio humanoide bateu seus punhos com garras e em seguida soltou uma risada recheada de satisfação. Disse: — Pode deixar comigo, Cuca! Os animais espirituais vão se arrepender de terem juntado uma nova equipe de Tuhpangers. — Ótimo. Mas antes que você vá, venha comigo. A feiticeira levou Ipupiara até o seu salão, onde seu caldeirão se localizava e lhe mostrou a imagem da guerreira azul. — Essa é a protegida do espirito do boto, uma garota que gosta muito de nadar, mas parece que para ela entrar em uma competição moderna vai ter que se dedicar mais a isso do que ser uma tuhpanger, então, eu quero que comece desmoronando a confiança dela. — Como vou fazer? — o monstro questionou confuso. — Isso é um problema seu. — após dar de ombros Cuca foi embora, deixando Ipupiara pensativo. … Quando a perna de Inês voou em direção de Miguel, o guerreiro verde conseguiu desviar se abaixando e, então, deu uma rasteira na guerreira amarela que caiu de costas no chão de terra. Ao ficar de pé novamente, Miguel tentou acertar um ataque na mais velha que segurou o golpe do mais novo com seus pés e abriu sua guarda, Inês acertou um belo chute no peitoral de Miguel e assim o jogou contra a parede. Inês levantou do chão com um pulo. — Já vai desistir? — disse a tuhpanger da cor amarela em um tom de desafio. — Nosso treino tem que mostrar resultado, assim você não vai ter nenhum. — Vamos ver… Claro que não! — o tuhpanger verde riu e mais uma vez se colocou em posição de ataque, os dois voltaram a batalhar. Do outro lado da aldeia perdida, Rafael se encontrava treinando com um boneco de madeira, ainda precisa se acertar com seu espirito animal por mais que seu preconceito sobre a cor já havia sido vencido. Somente Joaquim e Kataria que ainda não haviam chegado para o treinamento diário e isso estava deixando Iara preocupada, pois qualquer falha no equilíbrio entre os protetores espirituais poderia acarretar em uma vitória para Abaçay. — Será que Joaquim e Katarina vão demorar? — perguntou a indígena em voz alta. — Daqui a pouco ele estão aí. — disse Rafael após dar uma pausa em seu treino. — Não consigo deixar de me preocupar… — de repente Joaquim entra correndo, mas a protetora da cor azul não estava ao seu lado. — E Katarina? — perguntou Iara rapidamente. — Ela não vem. — respondeu Joaquim normalmente. — Como assim? — Iara já estava nervosa. — É, como assim a Katarina não vem treinar? — perguntou Inês se aproximando com Miguel logo atrás, o adolescente também fez um questionamento: — Ela tá doente? — Não, ficou treinando na piscina para as competições. O treinador dela disse que se ela quisesse chegar as olímpiadas precisaria treinar mais do que já estava. — Mas Katarina também tem um dever com Pindorama. — disse Iara. — Mas é o sonho dela. — Joaquim falou se aproximando do outro boneco de madeira para treinar. A fonte de água da aldeia começou a borbulhar,

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A Intrusa | Capítulo XII

“Bem dizem os romancistas que os romances se fazem por si. Criada a personagem, posta no meio em que terá de agir, ela caminhará por seus pés até o ponto final do último capítulo.Acontece, por isso, que o autor tem, às vezes, verdadeiras surpresas, como se todos os atos dos seus heróis não fossem obra sua! Concebida a idéia fundamental do livro, está criado o sopro de vida que o animará. A dificuldade está toda no primeiro impulso! Hei de sempre lembrar-me de uma noite em que fui encontrar o Tadeu, pálido, passeando agitadíssimo pelo escritório, com um verdadeiro ar de fúria.– Que tens tu?! – perguntei-lhe assustado, de entre portas.Voltou para mim os olhos esgazeados e disse, com uma sinceridade comovedora:– Tenho que o patife do Brás apaixonou-se por tal forma pela Delfina, que não sei como hei de casá-lo com a Lucinda! – e apontava com o dedo colérico para as folhas esparsas do seu romance, desordenadas por um vento de insubmissão. O caso era grave. Entrei, sentei-me e fiquei calado, assistindo ao duelo fantástico de um romancista com a sua personagem revoltada.Por fim, aventurei timidamente, querendo valer àquela aflição:– Por que não casas essa tal Lucinda com outro? que diabo!– Com outro?! estás doido! Ela adora o Brás e não pode absolutamente casar com outro. Seria um desastre! Com o Brás é que ela há de casar, quer ele queira, quer não queira!O desespero do romancista era tão evidente e profundo, que eu não ri. Fiquei desde então convencido de que a ficção, como a realidade, obedece a leis de imprevisto e de fatalidade. Li depois o romance… O Brás não casou com a Lucinda. Porque não quis, está claro!”Adolfo, acabando de dizer estas palavras, soltou uma baforada de fumo, afundou mais o corpo na larga poltrona do Argemiro e suspirou:– Está-se bem aqui!– Não achas? Pois essa poltrona amável estava encerrada no quarto dos badulaques por imprestável! Foi ela que a arrancou de lá, mandou-a ao estofador e pô-la aqui. E guerreiam uma mulher que me presta tais serviços!– Deixa guerrear… Na vida, como nos folhetins, os romances fazem-se por si… Vê tu o trabalho e os manejos da Pedrosa em que deram! Surpreendeu-me tanto o que disseste da filha, que estou quase apaixonado por ela… Palavra! nunca a supus capaz de uma cena tão fina. Parece do Tadeu.– E estava linda!– Demais a mais… – e depois de uma pausa: – A tua governanta é bonita? Disse-me a Pedrosa que não. Por isso infiro que sim.– Não sei…– Deixa-te de asneiras; sê franco.– Já te disse. – Ela leva o seu rigor até os teus amigos?– Parece. A não ser o Assunção…– Teria graça se o nosso Assunção atirava a batina às urtigas por amor da tua…– Cala-te, ímpio!– Estou calado! Mas é cada vez mais adorável, o Assunção! Para mim, ele tem lá dentro coisa oculta, obra de feitiçaria, que nem a minha sagacidade nem talvez a tua intimidade pode adivinhar… Não te parece?– Não. Nele há só o amor do céu… mais nada…– Estás seráfico! Pois tu acreditas que, hoje em dia, um homem válido se faça padre só por amor do céu? Qual, histórias! Eles escolhem a vida clerical como poderiam escolher outra qualquer acomodada ao seu egoísmo e à sua habilidade… Os inteligentes pensam tanto na vida eterna como eu ou tu, mas fazem nesta o que podem para chegarem a bispos… Tenho um medo deles que me pelo… O nosso Assunção é um exemplar único, faz-me lembrar um desses sacerdotes virtuosos dos romances anticlericais, com que o autor adula o sentimento dos leitores piegas… O que me agrada sobretudo no Assunção é que ele é mais amigo da humanidade que dos santos; e gasta-se mais em esmolas que em jejuns… Não vês o recato em que ele envolve as suas ações e as suas idéias? Anula a sua personalidade, como para dar vulto ao fato e pôr em toda a evidência a personalidade alheia… A palavra eu parece que lhe morre na garganta antes de lhe chegar à boca, e todavia ele é inteligente. Já me tenho servido da sua biblioteca; é opulenta em obras clássicas portuguesas. Se fosse escritor, seria um defensor da língua!– O valor do Assunção, para mim, que o conheço desde bem moço, está principalmente no coração. Ele é bom. Às vezes penso que ele estaria melhor num lugarejo qualquer do interior, ensinando crianças e animando a pobreza a suportar a vida, do que no Rio de Janeiro. Dizes bem. Ele não é lutador nem ambicioso; é um resignado e um meigo. se eu tivesse um irmão não lhe quereria mais. Entretanto, o Assunção nunca me confiou o seu segredo, que ele guardou sempre com tamanho recato que tive escrúpulo em interrogá-lo. Por que não havemos de acreditar na vocação? Ele sempre foi um místico. A mãe, uma senhora adorável, fez tudo para desviá-lo do sacerdócio, batalhou como uma heroína; mas ele dizia-se chamado por Deus, e Deus venceu a vontade materna. Fomos sempre amigos. Ele vivia com a sua ilusão, eu com o meu pecado; e com tão opostas idéias nunca ofendemos a nossa amizade. É verdade que ele me contagiou um pouco do seu sentimentalismo. É mais forte do que eu, que não lhe transmiti nem uma sombra da minha personalidade…– Não lhe conheceste nem uma paixão?– A dos livros, de que falaste há pouco; e essa mesma há alguns anos é que me dá a impressão de ser a tábua flutuante do seu naufrágio!– E tua filha?– Sim, ele adora minha filha!– Ora, pois, já tem com que se entreter. Dá-me outro charuto. São magníficos os teus charutos…Realmente, está-se bem aqui. Estou vai não vai a raptar-te a tua Alice!– Psiu! fala baixo…– Receias que ela esteja atrás da porta?– Quem sabe?…– Não duvides! Uma governanta de casa de um viúvo só, vinda por anúncio de jornal… deve ter ao menos um defeitozinho, e olha que o da curiosidade é quase virtuoso…

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Tuhpanger | Episódio 03

Enquanto Katarina auxiliada pelo rastreador do aplicativo de invocação procura por Rafael os outros Tuhpanger procuram pelo o monstro que no capítulo anterior aterrorizava a cidade do Rio de Janeiro. Rafael não se encontrava muito longe do local onde a tuhpanger azul o procurava, mas se encontrava bem escondido enquanto observava seu irmão mais velho cuidar de uma senhora idosa. Os dois demonstram serem bem íntimos e felizes um com o outro, como se fossem neto e avó, o guerreiro rosa sabia que não se tratava da avó deles porque ela havia falecido quando ainda eram novos. Os dois se encontram no pátio da casa e enquanto o rapaz limpa o pátio com um balde de água a senhora o observa sentada em uma cadeira de balançar. — Ele está aqui por perto… — sussurrou Katarina ao chegar a rua, estava certa, o tuhpanger rosa se encontrava ali por perto. A atenção da garota vai até a casa, ela observa o rapaz e a senhora idosa e então sua intuição a manda se aproximar. Quando Katarina se aproximou do portão, o rapaz negro caminhou até ela e com um sorriso disse: — Posso te ajudar? — sua voz era fina, parecia fazer parte de um grande musical. — Claro, eu… Eu queria te perguntar uma coisa, você me pareceu familiar. — sorriu a guerreira azul, então continuou falando: — Você conhece um rapaz, jogador de capoeira chamado Rafael Oliveira? Ele é alto e… — o outro a interrompeu. — É meu irmão. Desculpe, me chamo Ronaldo. Aconteceu alguma coisa com o meu irmão mais novo? — perguntou preocupado. — Não, mas pode acontecer com você. — respondeu Katarina. Ronaldo abriu o portão e em seguida Katarina entrou, os dois foram para a sala de estar da casa junto com a senhora na cadeira de balançar. Dolores é o seu nome. Sentaram no sofá, antes de continuarem a conversa Ronaldo serviu café e biscoitos para a convidada. — Então, poderia me contar melhor? — pediu o rapaz negro. — Sim, claro. Desculpa. — disse Katarina sorrindo. — Vocês acompanharam as últimas notícias? — Você diz dos monstros que apareceram e dos heróis coloridos? — perguntou Ronaldo rindo. — Sim, o mundo ficou de ponta cabeça. — Então, é sobre isso. Tem um monstro que… É difícil de explicar, mas ele deixa as pessoas com raiva e as deixa preconceituosas. O seu irmão foi atacado por esse monstro. Ele me contou a história de vocês, então, eu acho que ele, talvez, venha procurar por você. — Rafael? O meu irmão? — Vocês correm perigo, estou falando sério. — continuou Katarina. — Não viram a situação em que Rafael ficou. Ele me contou a história de vocês e eu tenho certeza que ele vai procurar por você e tomado de uma raiva que não é dele, com certeza vai tentar fazer algo de errado. — Rafael… O meu irmão, ele nunca foi agressivo comigo. Não entendo por qual motivo você achou que ele viesse atrás de mim para me fazer algum tipo de mal. — disse Ronaldo ainda sem compreender a situação. A guerreira azul suspirou e em seguida disse: — Escute, seu irmão não é mais o seu irmão. Ele está sendo controlado por uma raiva muito primitiva que não é dele. E o motivo de eu estar aqui, como eu já disse, seu irmão me contou sobre a história de vocês e deduzi que ele viria atrás. Vim para te avisar e eventualmente te proteger. — Me proteger? — perguntou Ronaldo confuso. — Mas como você pretende me proteger? Meu irmão luta capoeira. — Sim, quando chegar a hora… Se Rafael realmente vir até aqui, você entenderá. — Tudo bem. Eu vou levar Dolores até o quarto dela, volto daqui a pouco e a gente vai poder conversar mais sobre isso tudo… Tudo bem? — perguntou Ronaldo enquanto se levantava. A nadadora concordou balançando sua cabeça de forma afirmativa. Rafael ainda observava a casa do lado de fora, esperando uma chance de entrar e ir atrás do seu irmão mais velho. A cada minuto que passava sua raiva contra a existência do outro aumentava mais, a voz de seu pai dizendo coisas horríveis ficava intensa e frequente em sua mente ao longo dos segundos passando. Depois de colocar a senhora de quem cuida na cama para descansar um pouco, Ronaldo retornou a sala de estar onde Katarina o esperava nervosa com medo de que o tuhpanger rosa desse as caras a qualquer momento. — Você pode me explicar essa história direito? — pediu o mais velho. — Proteção, meu irmão sendo atacado por um desses monstros… A minha cabeça ainda não conseguiu assimilar tudo isso. — Claro. — sorriu a guerreira azul. — Tudo começou no primeiro ataque, eu… Seu irmão e mais três outros jovens adultos fomos escolhidos para usarmos os poderes dos espíritos animais protetores da Amazônia, então, tecnicamente ganhamos poderes para que possamos enfrentar essa ameaça. Bem, durante uma batalha, Rafael foi atingindo por esse monstro novo. — Você está me dizendo que vocês são esses tais de Tuhpanger que aparecem na televisão? Que enfrentam esses monstros? — pergunta Ronaldo confuso. Katarina afirma balançando sua cabeça. […] Em uma das praias da cidade maravilhosa o monstro Ralvix seguia atacando as pessoas. Atingia os civis com seus raios capazes de transformar até o mais calma animal em um agressivo descontrolado. As que não conseguiam escapar acabavam brigando com os demais ou então discutindo e Ralvix se divertia profundamente com as cenas que lhe eram proporcionadas durante toda a confusão. Porém, a sua diversão foi interrompida quando o guerreiro tuhpanger vermelho chegou disparando lasers com a sua pistola. Em seguida surgiram a amarela e o verde performando o mesmo ataque. Esses ataques a lasers fizeram com que faíscas saíssem do corpo de Ralvix como se fossem sangue. Os três ficaram de frente para o monstro que se recuperava dos ataques repentinos. — Tuhpanger malditos, eu vou fazer o mesmo

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